CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

ABAIXO O JEITINHO NACIONAL!





Edith Piaf disse uma vez "quando as cosas estão muito ruins, fatalmente, surgirá uma saída". Parece que as pessoas estão sofrendo uma espécie de ressaca moral coletiva, é algo como Zumbilândia.
É como se tudo estivesse se desmanchando numa fluidificação sem retorno, não há oásis, não há no que se agarrar, em quem confiar ou no que confiar. Aqui e ali aparece alguém que acha que está tudo bem ou que vamos superar ou que já passamos fases difíceis, quando escuto ou vejo pessoas do tipo eu me pergunto se essa pessoa está tendo um surto esquizofrênico, se ela quer ser apenas perfeitinha, do contra para parecer legal ou se é um otimista, idealista convicto de fato. Concordo, não estamos em Auschwitz ou em Cuba ou na Venezuela, são outras histórias, a nossa história, de longe, se parece àquelas, mas a nossa história é nossa.
Esse processo de fluidificação vem de muito tempo desde o dia que alguém brilhantemente sintetizou que tudo no Brasil tem um "jeitinho", omitindo que o "jeitinho" da parte sempre prejudica o todo.
O nosso problema é perda de essência, quando culturalmente, educacionalmente, historicamente, politicamente, moralmente incorporamos a ideia do obter sucesso em desfavor do outro.
Ninguém quer saber se o outro passou a vida inteira ralando para ter um carro do ano, importante é que ele deu um "jeitinho" para comprar o dele fiado, depois é só entrar com uma revisional.
Ser esperto, inteligente é ter um parente no governo que ajeita um contrato para a sua empresa, ser esperto é ficar na contra-fila do ônibus e ser o primeiro a sentar, ser esperto é sempre ter um dinheirinho no bolso para molhar a mão do guarda de trânsito, ser esperto é ter uma gatonet, é brigar para aumentar a nota do filho, sabendo que ele não merece ou inventar que o filho estava doente - quando estava dormindo - por isso não fez a prova.
É muito bom ter um governo tão preocupado com a miséria da população, principalmente, quando se aproxima do ano eleitoral, mas o mesmo governo nada faz para melhorar a seca no Nordeste, para aumentar a oferta de emprego, para, ao obrigar legalmente a inclusão nas escolas arcar também com toda a infraestrutura necessária a sua consecução, ou seja, escolas com salas arejadas, amplas, psicólogos, pedagogos, ambulatório, rampas.
Nada é feito para formar bons médicos dar os meios, melhor chamar médicos de fora, já prontos.
Então, o nosso país é o país dos pensamentos, palavras e obras inacabadas ou, pior, o país dos paliativos, dos placebos, o país dos coitadinhos, que sempre sofreu sob o jugo das elites e do imperialismo capitalista ... Não estamos reclamando do governo que elegemos, estamos procurando culpados.
Quais são os critérios que o povo brasileiro utiliza para escolher seus dirigentes? Os livros que eles leram ou publicaram sobre matérias específicas? As suas competências? Os seus feitos, preparo? Ou, porque eles prometeram um dinheirinho a mais? Um emprego, a dentadura, os óculos, a calcinha, a aposentadoria?

Precisamos de dirigentes probos ou de pessoas a quem possamos responsabilizar? Tudo se justifica. As ações dos eleitores justificam-se pela falta de estudo, pela pobreza, por ignorância política, mas essas justificativas se banalizaram porque ninguém de fato se importa para mudar o âmago, mais fácil envernizar a casca. O povo os elege porque pouco sabe sobre eles e eles se candidatam porque querem auferir seus próprios interesses em desfavor da população. O que aconteceu fisicamente em Mariana aconteceu em nós: a lama escorreu e se espalhou. Perdemos a essência, mas ainda nos resta o jeitinho nacional.

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