CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

CUCARACHAS



Ela colocou cuidadosamente a taça de vinho sobre a mesa de vidro. Gostou de ouvir o tilintar do vidro sobre o vidro, lembrava-lhe moedas entrechocando-se. Dava-lhe a sensação de poder.

“Posso tomar um bom vinho numa fina taça, paguei com boa parte de minha vida por isso”.

Revoltada, jogou o cabelo para trás. O celular vibrou. Ela apenas olhou o número na tela. Não iria atender. Podia imaginar todo o diálogo com Carmem. O mesmo de sempre.  A chamada encerrou-se sozinha. Ela fechou os olhos, recostou-se na poltrona. A casa estava silenciosa. A janela aberta deixava entrar a suave brisa da noite primaveril. Ainda com os olhos fechados visualizou o jardim iluminado. O caminho que levava da garagem para o portão, a saída entre os arbustos e as pequenas árvores bem podadas, tanto quanto foram bem podadas as suas infância e adolescência. Tudo naquela família, naquela casa era bendita pela forma e maldita pelo conteúdo.

 “Antes, eu sofria por acreditar nunca ter sido o que queriam que eu fosse. Depois, descobri que o desejo familiar para comigo, poderia ser bem mais niilista. Daí, eu concluí que seria mais produtivo pensar no que eu poderia ser para mim mesma, pois a imutabilidade da vida humana tanto quanto sua infinitude resume-se a uma impossibilidade”.

O celular voltou a vibrar. Entre abrir os olhos e atender ao telefone ela decidiu tomar mais um gole de vinho. Esticou a mão, alcançando a taça.

“Se eu ficasse cega não me perderia dentro desta casa, talvez me perdesse em mim”.

 A vibração começou a irritá-la. A persistência de Carmem, a lembrança da sua voz sibilada, de tom monocórdio, as frases espaçadas, como se fossem mastigadas e pulverizadas antes de serem ditas, extremamente características à essência predadora de Carmem. Familiares demais para querer ouvi-las.

“Por que as pessoas não deixavam, simplesmente, de existir?”

“Não uma morte, um desaparecimento. Não um desaparecimento, um esquecimento. A existência eliminada da memória de todos”.

“As pessoas passam a vida preocupadas em construir memórias, imagens que fazem de si para si, na verdade, sempre com a intenção subjacente de destruir as memórias e imagens alheias. Quem se arvora iconoclasta é o pior dos hipócritas!”

Lembrou-se de sua madrasta que morreu de Alzheimer. Ela zombava sempre silenciosamente das pessoas. Suas críticas, quando as proferia, eram sardônicas, cruéis, profundamente ferinas.

“Morreu sorrindo ou era um esgar de escárnio para os que permaneciam?”

O pai morreu de cirrose. Um homem lacônico e omisso. Subtraiu-se de amá-la como filha durante toda a vida, quanto à mãe biológica ela nunca conhecera e nunca ninguém lhe falou sobre ela.

Como lhe dizia Carmem: “Sua vida, minha querida, é um legado da morte.”

“Eu seria feliz se me esquecesse de mim?”

“Não, não, eu serei menos infeliz se Carmem não me esquecer.”

Carmem era a sua meia-irmã, filha da mulher de seu pai. Tal mãe, tal filha, ambas, cúmplices naquilo que melhor sabiam fazer: odiá-la e tornar a sua vida um suplício.

Olhou para o pequeno relógio de ouro branco em seu pulso, marcava meia-noite. Ela levou a mão ao colo onde repousava um dos caríssimos colares de sua madrasta, acariciou-o. Gostava de joias, havia mais como aquelas guardadas em sua bolsa.

 “Não existe felicidade, nós nos esquecemos por um tempo o quanto somos infelizes”. “Todos nós imaginamos o que e quem somos ou o que e quem são os outros, vivemos a partir de presunções, como o cego de nascença presume as cores. O que aconteceria se todos parassem de presumir? O cego de nascença que passasse a ver... Até quando veria tudo com bons olhos?”.

Poderia desligar o telefone, mas certamente correria o risco de sua irmã vir até a casa. Exigindo uma justificativa, não, através de um expresso questionamento nervoso, Carmem não era assim, mas pelo silêncio cáustico impresso no olhar parado, no ódio transpirado por cada um dos seus poros.

Se ela não atendesse, Carmem ficaria ligando a cada meia hora, insistindo, satisfazendo-se em perseguir pacientemente a presa, como um animal faz. A irmã era assim, desde pequena, sabia, à maneira dos ratos, cavar subterrâneos nos alicerces mais sólidos. Ela tinha paciência, determinação, persistência e satisfação. Comprazia-se em destruir coisas e pessoas.

“Seria bom ver seus olhos de roedor, pequenos e sem cor, pela última vez?”

“Não, não seria”.

Talvez lhe agradasse ver a expressão de espanto de sua meia-irmã se soubesse que a “presa”, ao longo do tempo, adquiriu imunidade como uma barata. Ela descobriu o que poderia ser para si mesma: um inseto cretino, que não se sentia nem um pouco culpado por sobreviver. Ela foi além, passou a considerar a vida sem remorsos e sem culpas como algo real, tangível, indefectível, aristocrático.

“O que é a culpa senão a negação consciente de um ato inconsciente presumidamente incorreto?”

“Eu existo por que é da minha natureza existir e continuarei a existir, apesar das pessoas. Viver não implica necessariamente em ser feliz, todavia, viver o mais longe possível do ódio implica em permanecer sã e salva por muito mais tempo”.

Brindou-se com o último gole do vinho.

A campainha soou, era o táxi. O celular vibrou mais uma vez. Agora ela poderia desligá-lo, mas não o fez.

“Que família eu tive! Nelson Rodrigues dizia que “Toda família tem um momento em que começa a apodrecer (...) ”,significa que a família foi boa até certo dia, quando surgiu a degradação. No meu caso peguei o bonde na parada do inferno. Pelo menos, poderei cair e me levantar de qualquer jeito, em qualquer lugar, a qualquer hora, sem me incomodar. Por compreender o valor da preservação, da minha autopreservação, posso confirmar a sabedoria de encontrar benefícios no malefício”.

Ela se ergueu, arrumou os cabelos voluptuosamente. Pegou a mala e saiu da casa que já não era dela nem de Carmem deixando a porta entreaberta. Ali, deixou uma poltrona, uma mesa com tampo de vidro, o celular e uma taça vazia de vinho para sua meia-irmã como recordação pelo que jamais teria de volta.

Carmem irá desfrutar do que eu deixei? Óbvio que sim! Desfrutará com ódio para o resto de sua mesquinha vida. Provavelmente os levará para casa onde poderá, ao vê-los diariamente, arquitetar sua vingança. O que eu sinto em relação a isso? Nada. Eu deveria sentir satisfação, todavia não sou Carmem... O passado me parece distante, ausente, indolor. É como se eu tivesse nascido hoje, agora. O inseto se transforma, sai do casulo.

Entrou no taxi e partiu. Ela vendera, sorrateira e meticulosamente, todos os bens da família como um belo presente de aniversário.