CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Nome


Os dedos curtos dançam ferozmente
com o instrumento loucos dançarinos
Um tango ligeiro, momento que desmente
O desalento ao desenhar os símbolos pequeninos...

Sob as garras, quase vergado
vai o lápis sobre a celulose 
dando forma as letras, significado
Aos sinais grafados com escoliose


Um nome, seu nome arquejante é soletrado
A ferramenta entrededos pulsa erótica
Ela que o torna armado
Do saber guardado em sua cadeia amniótica
Liberta a alma naquela tosca escrita
Recria a vida, a mente, o mundo
Sorri, lambe-lhe a ponta,grita
_ Sou eu, sou eu! Eu sou Raimundo!


24/09/2014

A questão do COMO.




Impressionante o que se lê e ouve em Congressos, Seminários, Comícios, Showmícios e vários outros eventos dessa natureza. Discurso, discurso, propostas, questionamentos, formulações, elucubrações, palavras ao vento. Belas no formato, estruturadas, com nexo, mera oratória, vazias de conteúdo. Não será a "nova era" digital a modificar as coisas. Não é a informática a varinha de condão que vai magicamente transformar o universo educacional, a educação, a escola, alunos, professores, secretários, diretores, agentes etc. O problema ainda está no COMO. É formidável ouvir políticos que propõe um maior investimento no setor educacional. É maravilhoso, até emocionante ouvir as pessoas elaborando propostas de melhorias para o setor. Mas COMO?
COMO se as pessoas não mudaram intrinsecamente? COMO se verbalizar não significa obrigatoriamente agir? A tão propalada verba do PIB para educação tem que vir de algum lugar COMO é feita essa arrecadação e quanto, efetivamente, chega ao destino? O brasileiro ouve: O Presidente, o Congresso destinaram verbas para tais e tais obras, quando ele deveria ouvir na verdade é: o povo brasileiro pagou tanto em impostos, portanto o povo brasileiro através de seus representantes (não vou entrar no mérito dessa representação) destina verbas para isso e aquilo. É fundamentalmente o COMO.
"Ah! Precisamos formar professores em tecnologia de informação para aprender a usar os instrumentos e adequá-los em suas aulas". COMO? A proposição correta seria precisamos, primeiramente, ensinar o professor a ENSINAR. O Mario Cortella diz o seguinte: não adianta você ser cozinheiro se não sabe cozinhar, porque quem sabe cozinhar o faz em fogareiro, fogão industrial em qualquer coisa e o faz BEM. Se você presenteia a quem não cozinha um fogão atômico é um presente inútil. Para ensinar alguém alguma coisa é necessário antes de tudo que essa pessoa se disponha a aprender. Se você vai ensinar um ofício a uma pessoa, essa pessoa não pode ter como única meta em sua vida ganhar dinheiro com a profissão porque ela vai fugir completamente ao ofício ensinado. É lógico. O político aqui no Brasil é carreirista, só quer saber de ser político para ganhar bem, FATO. O político brasileiro está interessado nos altos ideais políticos de "bem-estar social"? Claro que não! Está preocupado com o seu bem-estar individual. Ponto. O professor que só visa a própria sobrevivência está preocupado com os altos ideais da educação? 
Qualquer profissional bem sucedido ( não apenas financeiramente falando) vai certamente dizer que fez do seu trabalho um ato de fé, de amor. E ninguém vai entender, muitos vão até zombar, porque o homem é medido pelo que ele acumula de riquezas. Por isso o COMO não interessa, apenas o resultado. Mesmo que seja o resultado um placebo ou um paliativo ou um enjambramento. Porque assim são feitas as coisas neste País. Ninguém quer consertar o que está errado (ninguém erra). É como o médico que prescreve aspirina para a dor do câncer que o paciente sem dinheiro não pode tratar. E o COMO vira verbo pronominal e é conjugado...
Eu te como, Tu me comes, Ele me come....

24/09/2014
G

Acima com a Mediocridade



Há uma lenda sobre mulheres que viviam em bandos numa sociedade extremamente matriarcal, onde os poucos homens eram seus servos e apenas serviam para procriar. Se for fato, a sociedade patriarcal que se seguiu não modificou o paradigma, mas o gênero: mulheres servas que só servem para procriar. Na continuidade, poderia ocorrer uma síntese hegeliana em que a resultante fosse uma sociedade andrógina ou uma junção, um equilíbrio entre o matriarcalismo e o patriarcalismo, mas o que vemos ocorrer é o radicalismo. A oportunização e a legalização de grupos que exageram na sua auto-importância. De um lado os grupos homossexuais, bissexuais, transexuais, andróginos (que não são gays, mas considerados como tal) do outro, um grupo que acha mais eficaz a extinção dos anteriores e no meio desse cabo de guerra permanecem dois grupos um que se considera "normal por ser hetero" e outro que são "coisa alguma" porque não pensam a "normalidade" em sua forma tradicional e não se deixam intitular. Não há, pelo menos eu desconheço, um estudo sociológico sobre o assunto em termos de quantitativos regionais dos grupos homossexuais, bissexuais, transexuais, andróginos, dos grupos homofóbicos, dos "normais/hetero" e dos "coisa alguma".
Somos, culturalmente, um povo altamente preconceituoso ( Negamos a discriminação, a homofobia, negamos a existência dos gays, bissexuais, transsexuais, dos andróginos e dos "coisa alguma". Só existe a "normalidade". Isso afirmamos de pés juntos). 
Os grupos organizados não contemplam, nem metade da população feminina e masculina homossexual, nem metade dos grupos homofóbicos (que pleiteiam a "normalidade"), nem metade dos "normais/hetero", nem dos andróginos, nem dos "coisa alguma". E tudo isso quer dizer o que? Que é melhor manter a "normalidade" e fazer toda uma família in-feliz, do que ter e reconhecer que existe integridade também numa opção sexual, independente de religião, política, família ou qualquer outra coisa? Ou que é melhor, simplesmente, extinguir seja pelo genocídio, parricídio, fratricídio ou pelo desprezo e o repúdio, aos gays e tudo o mais em nome de uma "normalidade"? 
Não estou fazendo apologia a nada, apenas constato uma realidade infeliz e profundamente complexa porque arraigada numa cultura anacrônica.
O que é a "normalidade"? O que é ser "normal"? O que tem sido feito até agora para modificarmos esse paradigma que se estende não só na questão sexual, como também em tudo oriundo dessa cultura sectarizante? 
É a música cearense. É a ginasta paraibana. É o jeitinho carioca. É a pauliceia desvairada. É o churrasco sulista. Deveríamos ver isso como variações sobre o mesmo tema: somos um só povo, uma só Nação. Onde enterramos nossa nacionalidade? 
Estamos profundamente fragmentados. Nem mais o idioma nos alicerça, pois já não falamos a mesma língua; Ninguém se importa em falar ou escrever corretamente. Fomos corrompidos pela didática da facilitação da comunicação, por uma pedagogia que nos nega o desafio, o desconhecido, o erro, o transcendente pelo atrativo do comum, do grupal, do fácil, do normal, do medíocre. Trocamos o verbo "ser" , não pelo "ter" , mas pelo prosaico "ganhar". 
"Não preciso aprender a dirigir, só "ganhar" a carta". "Não preciso estudar, só "ganhar" as notas para passar de ano". "Não preciso trabalhar pelo país,só "ganhar" a eleição". "Não preciso aprender a tocar um instrumento, a cantar, ou ser um bom ator, só "ganhar" passe-livre na mídia". "Não me importa se o sinal está vermelho, quero é "ganhar" e "ultrapassar" o carro a minha frente".
Onde um indivíduo só "ganha", muita coisa é perdida.
Mudamos as leis, mas elas têm eficácia e eficiência para transformar a sociedade? Basta mudar o ordenamento jurídico e fica tudo maravilhoso? Foi assim com o Código de Trânsito? Foi assim com o Estatuto dos Jovens e Adolescentes? Foi assim com o Estatuto dos Idosos? Foi assim com o novo Código Civil? Foi assim com as Bolsas Assistenciais? Foi assim com o novo modelo pedagógico? Foi assim com o fator previdenciário? Com o novo Sistema de Saúde? Somos o país do cosmopolitismo sem preconceito? Do futebol, do samba e das mulheres sensuais? Então, por que a violência "normalmente" crassa?
Tem algo muito errado com esse país e não é o populacho, estejam certos. 
O errado também não está abaixo.

23/09/2014
G

GUERRA


A torre alta refletindo a luz
Iluminando aqueles corpos nus
Pálidos, frios em expiação
Corpos sem alma, uma maldição

Leve tremeluzir do pavilhão no ar
Insígnia chama tênue a se apagar
Ódio espreitando em todo o lugar
Lamento e pranto a se espalhar

Sonho e sorriso a se estilhaçar
No muro que o preconceito faz elevar
Fogo e cinza o amor enterram
Sem trégua ou absolvição 
O homem em si mesmo o bastião
Da guerra



22/09/2014

O Velho




Como nuvem tentando lambiscar a lua
Que inalcançável segue seu rumo
Vejo a mulher na janela, nua
Rogando-me um abraço, presumo


Mas, sou eu homem abandonado
Que da janela anseia a vida
Que sonha e deseja, emasculado
Como Radamés aos pés da bela Aída

Sou eu que me apego à carne
Às luzes, à platéia, ao ato
Esqueço que sou mero encarne
Do que fui, sou caricato


Prossegue a lua o seu caminho
Angustio-me à comiseração por saber
Que ela continuará, enquanto definho
Sem se importunar com o meu perecer.

19/09/2014