CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Acima com a Mediocridade



Há uma lenda sobre mulheres que viviam em bandos numa sociedade extremamente matriarcal, onde os poucos homens eram seus servos e apenas serviam para procriar. Se for fato, a sociedade patriarcal que se seguiu não modificou o paradigma, mas o gênero: mulheres servas que só servem para procriar. Na continuidade, poderia ocorrer uma síntese hegeliana em que a resultante fosse uma sociedade andrógina ou uma junção, um equilíbrio entre o matriarcalismo e o patriarcalismo, mas o que vemos ocorrer é o radicalismo. A oportunização e a legalização de grupos que exageram na sua auto-importância. De um lado os grupos homossexuais, bissexuais, transexuais, andróginos (que não são gays, mas considerados como tal) do outro, um grupo que acha mais eficaz a extinção dos anteriores e no meio desse cabo de guerra permanecem dois grupos um que se considera "normal por ser hetero" e outro que são "coisa alguma" porque não pensam a "normalidade" em sua forma tradicional e não se deixam intitular. Não há, pelo menos eu desconheço, um estudo sociológico sobre o assunto em termos de quantitativos regionais dos grupos homossexuais, bissexuais, transexuais, andróginos, dos grupos homofóbicos, dos "normais/hetero" e dos "coisa alguma".
Somos, culturalmente, um povo altamente preconceituoso ( Negamos a discriminação, a homofobia, negamos a existência dos gays, bissexuais, transsexuais, dos andróginos e dos "coisa alguma". Só existe a "normalidade". Isso afirmamos de pés juntos). 
Os grupos organizados não contemplam, nem metade da população feminina e masculina homossexual, nem metade dos grupos homofóbicos (que pleiteiam a "normalidade"), nem metade dos "normais/hetero", nem dos andróginos, nem dos "coisa alguma". E tudo isso quer dizer o que? Que é melhor manter a "normalidade" e fazer toda uma família in-feliz, do que ter e reconhecer que existe integridade também numa opção sexual, independente de religião, política, família ou qualquer outra coisa? Ou que é melhor, simplesmente, extinguir seja pelo genocídio, parricídio, fratricídio ou pelo desprezo e o repúdio, aos gays e tudo o mais em nome de uma "normalidade"? 
Não estou fazendo apologia a nada, apenas constato uma realidade infeliz e profundamente complexa porque arraigada numa cultura anacrônica.
O que é a "normalidade"? O que é ser "normal"? O que tem sido feito até agora para modificarmos esse paradigma que se estende não só na questão sexual, como também em tudo oriundo dessa cultura sectarizante? 
É a música cearense. É a ginasta paraibana. É o jeitinho carioca. É a pauliceia desvairada. É o churrasco sulista. Deveríamos ver isso como variações sobre o mesmo tema: somos um só povo, uma só Nação. Onde enterramos nossa nacionalidade? 
Estamos profundamente fragmentados. Nem mais o idioma nos alicerça, pois já não falamos a mesma língua; Ninguém se importa em falar ou escrever corretamente. Fomos corrompidos pela didática da facilitação da comunicação, por uma pedagogia que nos nega o desafio, o desconhecido, o erro, o transcendente pelo atrativo do comum, do grupal, do fácil, do normal, do medíocre. Trocamos o verbo "ser" , não pelo "ter" , mas pelo prosaico "ganhar". 
"Não preciso aprender a dirigir, só "ganhar" a carta". "Não preciso estudar, só "ganhar" as notas para passar de ano". "Não preciso trabalhar pelo país,só "ganhar" a eleição". "Não preciso aprender a tocar um instrumento, a cantar, ou ser um bom ator, só "ganhar" passe-livre na mídia". "Não me importa se o sinal está vermelho, quero é "ganhar" e "ultrapassar" o carro a minha frente".
Onde um indivíduo só "ganha", muita coisa é perdida.
Mudamos as leis, mas elas têm eficácia e eficiência para transformar a sociedade? Basta mudar o ordenamento jurídico e fica tudo maravilhoso? Foi assim com o Código de Trânsito? Foi assim com o Estatuto dos Jovens e Adolescentes? Foi assim com o Estatuto dos Idosos? Foi assim com o novo Código Civil? Foi assim com as Bolsas Assistenciais? Foi assim com o novo modelo pedagógico? Foi assim com o fator previdenciário? Com o novo Sistema de Saúde? Somos o país do cosmopolitismo sem preconceito? Do futebol, do samba e das mulheres sensuais? Então, por que a violência "normalmente" crassa?
Tem algo muito errado com esse país e não é o populacho, estejam certos. 
O errado também não está abaixo.

23/09/2014
G

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