CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

sábado, 26 de julho de 2014

LUMINAR


O velho abriu a porta da casa e saiu arrastando o banquinho até a calçada. Sentou-se, acomodando as costas envergadas à parede, com cuidado para não estragar a pintura nova oferecida gratuitamente pelo governo.
Eram quase seis da tarde.
Daquele ponto de observação o velho podia avistar a cruz na ponta da torre da igreja no outro bairro; o muro, a sua frente, da fábrica de tecidos agora abandonada; na esquina esquerda, a farmácia; na esquina direita, o bar da Laguna. No seu lado da calçada, ele via as casinhas iguais à dele se apinharem escoliosamente. Todas recém-pintadas, favorecidas pela Prefeitura. As cores eram horríveis iam do amarelo canário ao verde limão, do vermelho sangue ao azul celeste. As casinhas chamavam atenção pelo colorido curvo, contudo o transeunte que olhasse mais detidamente acabaria sentindo-se visualmente incomodado a ponto de não repetir a olhada. Naquela rua não passavam muitos carros e muito menos transeuntes.
A casa dele fora pintada de vermelho. O assessor do Prefeito explicara que as cores “alegres” eram parte do Projeto de Revitalização do bairro.
E é assim que eles projetam uma revitalização? Perguntou o velho a si mesmo. Não tinha mais pique para discutir bobagens. Se eles queriam revitalizar por que não sanearam? Não mudaram as lâmpadas dos postes? Os postes? Por que não asfaltaram as ruas, ao menos arrumaram o calçamento cheio de pedras soltas e buracos? Revitalizar é sinônimo de colorir aprendi mais um sofisma... Aquele assessor era só projeto... Projeto para cá e para lá... Projeto é sinônimo de Prefeitura, Governo ou Governado? Projeto, projétil, protege, projeta, governo, governado, pretérito perfeito, imperfeito...
O velho, ao pensar todas essas coisas, riu, olhando de esguelha para a rua vazia.
Sou invisível, não estou. Sou invisível. ele concluiu.  Posso fazer,  pensar e falar o que eu quiser. Ninguém me percebe. Nem os vizinhos. Se eu morrer aqui neste minuto, quanto tempo levaria para a ilação de minha morte? Talvez quando a putrefação ultrapassasse a anosmia dos vizinhos... Hoje é quinta-feira, talvez no sábado, quando passasse o caminhão de lixo.
Ele imaginou a expressão estupefata do lixeiro dando de cara com um velho morto sentado num banquinho. Gargalhou até engasgar-se.
Puxou seu saquinho de fumo de um bolso, do outro sacou a seda para fazer um palheiro. Os dedos grossos enrolaram com habilidade de longa prática o cigarro que levou a boca. Um Zippo emergiu do bolso da camisa e logo o velho pitava sem pressa, soltando a fumaça em círculos, corações e linhas irregulares. Ele gostava de desenhar e de relembrar. Perdeu-se na contemplação da parede da fábrica que praticamente tomava toda a rua.
Fora uma grande fábrica, uma fábrica boa que alimentava mais de trinta famílias. À rua deram o nome de “Pero Vaz” em homenagem ao proprietário da Fábrica de Tecidos Luminar, considerado, na época, um benemérito empresário, protetor da família, da sociedade e do bem comum. Mas, nem todo Pero Vaz bem caminha e a Luminar, por sua vez, era fábrica de tecidos, não, de velas ou lâmpadas. Nomes... Quantos nomes e apelidos esquisitos ele ouvira ao longo da vida? Gordo, para o magro. Grande, para o medíocre. Laura Pequeno, para um mulherão. Doce Vida, para um bordel. José Flores de Jesus, para o maior canalha que conhecera.
Os nomes não traduzem méritos, nem sempre o fazem.
As luzes amarelas da rua acenderam-se, mas a noite ainda não havia chegado. Um carro passou devagar pela rua. No lusco-fusco as cores das casas pareciam se mover, avançar, contorcer-se. O motorista diminuiu a velocidade e observou espantado de um lado para o outro da rua, chegou a baixar o vidro, chegou até a olhar para o velho como se não o visse, por fim acelerou ansioso por sair dali.
O velho meneou a cabeça resmungando tristemente: Rua feia, vida feia, mais um que se escapa de ti! Quem me dera fazer o mesmo!
Voltou-se para a parede da fábrica pintada de azul celeste. Alguns adolescentes haviam grafitado a parede. Alguém dissera ao velho que cada grafite naquela parede era uma assinatura, a assinatura de quem grafitou. Seria verdade? Aquilo, para ele, eram hieróglifos, se representavam nomes, sinceramente, ele não queria conhecer os signatários.
Muitas vezes os nomes traduzem a antinomia do mérito. Luminar, quem tu iluminaste foi o mesmo que te ensombreceu, foi sim!
A noite desceu. As luzes mal iluminavam a calçada. Do bar da Laguna o velho ouvia a música ruim e alta trazida pela brisa noturna. O bar despertava como faminto morcego em busca de alimento: drogas, bebida, sexo; ficaria aberto até as duas da madrugada alimentando também a farmácia que era 24 horas, a única do bairro e da Rua Pero Vaz.
O velho estreitou os olhos para ver melhor a esquina do bar. Um carro parou no cruzamento, um moço desceu, dirigindo-se ao estabelecimento, quando retornou carregava um saco cheio de alguma coisa. Cerveja? Refrigerantes? Drogas? Quem se importava? Ali, um dia, já fora um restaurante, uma pousada, uma boutique, uma loja de ferragens, um hospital de bonecas. Há tantos anos, tantos. Tudo muda com o tempo e a memória do homem que como a própria vida fica cada dia mais curta.
Ele coçou as têmporas com a mão esquerda. A mão direita segurava a ponta do palheiro apagada entre os dedos. O velho atirou os restos mortais do cigarro na coxia.
Ele fechou os olhos para rever a rua. Uma rua alegre, crianças correndo atrás das pipas, mulheres e homens de todos os tipos entrando e saindo da fábrica ao seu apitar que ecoava pelo bairro, recordando a música de Noel. A feira livre, das terças-feiras, cheia de gente, frutas, verduras, peixes, carnes, roupas. Ouviu o som do chegadinho e do algodão doce às tardes, o bulício da criançada que lhes perseguia aos risos, tilintando moedas. Tudo era a fábrica, tudo se iluminava à  sombra de Luminar, até que sobreveio a vaidade, a ganância, o demérito. Mas, quem disso se lembrava? Quem?
Pero Vaz levantou-se, pegou o banco e entrou em casa. Autocomiserando-se enxugou com as costas das mãos as suas lágrimas. Lembrou-se, então, do assessor e da revitalização.
O que passou, passou! O pretérito é, realmente, perfeito em nossas vidas!  - pensou e se perdoou.



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