CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

sábado, 21 de setembro de 2013

TALA DURA



A chuva caía, bem fininha, fraquinha, molhando devagar as pessoas, a frente das casas, o barro do chão.
Simão corria pela rua de terra, com os pés descalços, empunhando o fio da pipa que subia para o céu lutando contra os pingos da garoa e o próprio peso. Um menino sentado na mureta do bar espia e provoca.
_ Empina, não! Tá pequena e pesada! Num tem chicote que’guente!
_ Sobe sim, lazarento! Responde Simão.
Ao passar pelo provocador, Simão estendeu o dedo médio da mão esquerda. O outro riu.
A pipa subiu apesar da inveja do outro, apesar do chicote curto, apesar da chuva. Simão ri, pula, empina. Sua alegria esmorece um pouco quando escuta o berro inconfundível do padrasto que odeia quando chega em casa e vê o enteado brincando no meio da rua. Vagabundo, vadio, filho da puta, são os menores nomes que recebe por sua alegria. Simão está acostumado, se faz de surdo. A pipa no céu nublado, também não escuta os palavrões.
Mas, não foi a pipa que recebeu o bofete, dado com mão fechada bem na nuca do menino que caiu. Seu corpo miúdo rolou no barro enlameado, a cabeça esmagou no fio de pedra da calçada tosca.
As mulheres gritam: _ Assassino! Matou a criança! Matou o menino da Edvige! Uma diz para a filha: _ Corre, lerda, vai chamar a Edvige que o Mundico matou o filho dela!
Os homens saem da bodega e correm para cima do assassino que acuado puxa a peixeira e com ela risca o chão. Fala entredentes:
_ O filho da puta morreu de ruindade. Menos um “preu” encher a barriga. Quem é “home aqui pra vim, vem”!
O sangue de Simão se espalhou pelo solo, misturando-se com a chuva, virando lama escura, vermelha que Mundico, sem qualquer remorso, pisava. A palidez da criança contrastava com as cores da rua, embora conservasse na face o sorriso, derradeira alegria.
Edvige vem chegando, traz na mão a marmita de alumínio que leva para o almoço na lavanderia onde trabalha. Quando vê o filho estendido no chão, ela grita. Um grito comprido de fêmea que perdeu a cria. Corre em direção ao corpinho sujo de terra, mas vê Mundico no meio do caminho, segurando a faca, eles se olham. Ninguém lhe disse nada, ela compreende tudo. O grito de dor se transforma num grito de guerra. Fêmea, macho e cria morta.
Ninguém naquela redondeza gostava de Mundico, valentão, cabra malvado que já tinha furado uma dúzia e matado outra. Ninguém detém Edvige.
A marmita vooava de um lado para o outro. Mundico tentou aparar os golpes com o braço livre, enquanto com o outro, esfaquear a companheira. Mas, a mulher tomada pelo ódio, pela dor com agilidade felina se esquivava. A marmita acertava a cabeça dele, o rosto, seu peito, novamente a cabeça. Ele não via mais, o sangue descia aos jorros cobrindo-lhe os olhos, entrando pelo nariz, respirava com dificuldade pela boca. Jogava com a peixeira para a frente, pros lados, dava pontapés no ar, na esperança de acertar a mulher que não parava de golpear, seguia batendo, rodeava-o feito bicho.
Edvige levantou a marmita acertando o último golpe de cima pra baixo. Um único golpe com toda a força de uma lavadeira, de uma carregadora d’água, partindo a cabeça de Mundico. Muque de homem num braço de mulher.
Os olhos de Mundico saltaram das órbitas, a boca se retorceu, o corpo dele despencou ao lado do corpo de Simão.
Edvige ajoelhou-se. Não chorava mais, não gritava mais. Largou o que restava da marmita. Alguém lhe deu uma toalha, com ela enrolou o filho.
As mulheres seguiam Edvige em silêncio. Iriam para sua casa, ficariam com ela, velariam Simão. Algumas pisaram no corpo de Mundico, outras cuspiram.
Os homens deram as costas ao cadáver. O melhor era voltar para a bodega e tomar um bom gole de pinga, engoliam em seco, falando uns pros outros: _ Mãe é mãe! _Se eu fosse mulher e mãe faria do mesmo jeito, diziam. Um gaiato comentou: _ Vai ser mais uma morte para a polícia resolver. _ Quem vai falar?
Ninguém.
A pipa indiferente veio rolando pela rua de terra. O menino que ainda estava na mureta correu para pegá-la.
_ O azarado era um fazedor de pipa da porra! Pensou.