CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

MATURAÇÃO




Dentro do terreno espalhavam-se abandonadas ferramentas. Eram pás, ancinhos, enxadas - todas cobertas por mato e ervas daninhas. A cerca não existia em alguns pontos. As estacas e os arames tinham sido arrancados. A velha cacimba estava sem tampa e seca. Usaram-na como depósito de lixo. Não havia mais curral, dele não restava nem o esterco das vacas.  
O rancho estava em ruínas. As tábuas de madeira anteriormente caiadas de branco, agora estavam em pedaços. A construção não caía, devido, talvez, ao seu alicerce e às grossas vigas, que embora abrigassem cupins ainda não estavam corroídas o suficiente para deitarem por terra a estrutura.
Em seu interior, pelo chão, via-se o lixo da modernidade: camisinhas usadas, maços de cigarro amassados, guimbas, frascos vazios de bebida e copos descartáveis, embalagens de alumínio com restos de alimentos putrefatos. Os poleiros e os estábulos estavam em escombros, um amontoado de tábuas partidas misturadas com palha velha, ninho para escorpiões e ratazanas.
A casa da chácara ocupava o alto de um pequeno morro distava uns trinta metros de onde estávamos. A única via de acesso estava coberta por um emaranhado de malícias, urtigas e carrapichos. O homem ao meu lado puxou o facão do cinto e começou a desferir golpes para lá e para cá abrindo caminho enquanto andava na direção dela. Eu o seguia observando as árvores antigas, lembrando o quanto tinha sido belo aquele jardim.
A casa estava tão deteriorada quanto o resto. Uma grossa corrente segurava a porta que estava entreaberta. Alguns espertalhões tinham retirado os pinos de encaixe das dobradiças. O homem empurrou a porta para o lado. Um odor nauseabundo de imundícies quase me fez vomitar. As paredes estavam esburacadas, os ladrilhos dos pisos tinham sido metodicamente arrancados e empilhados num canto da sala esperando que algum dia o diligente usurpador os levasse. Todas as lâmpadas haviam sido arrancadas juntamente com seus bocais. Ficaram os fios dependurados. Também tinham levado pias, torneiras, vasos sanitários e os chuveiros. A casa aparentemente só era usada como banheiro. Um enorme banheiro fétido.
Tudo era desolação.
O homem guardou o facão. Tirou o chapéu de palha da cabeça e voltou-se para mim.
_ Era isso que a senhora queria ver?
_ Sinceramente, Seu Pedro? Não, não era isso que eu queria ver. Respondi com tristeza e cansaço na voz. Aquilo estava sendo mais difícil do que eu imaginara. Eu estava procurando um lugar para me esconder dos problemas, não uma lixeira de problemas para me jogar dentro.
_ Eu entendo, Dona Sara. Quem quer ver a casa dos pais da gente nesse estado? Mas, depois que eles morreram não tinha como a gente cuidar. A senhora vivia viajando, cuidando do trabalho e dos filhos. Infelizmente...
_ Não precisa se desculpar, seu Pedro. A culpa foi minha. Fiquei muito triste com a morte deles, não queria voltar aqui. As lembranças eram muito fortes.
_ E agora? A senhora está pensando em vender? Esse terreno vale uma fortuna.
_ Não. Não vou vender, seu Pedro. Não tenho mais o que fazer na cidade. Meus filhos cresceram, casaram, têm a vida deles. Meu marido faleceu. Estou aposentada. Preciso de um lugar para ficar um pouco longe de tudo. Resolver algumas coisas, me afastar de outras...
_ É, eu entendo... Se a senhora me permite dizer, vai precisar de uma boa grana pra reformar isso aqui.
_ Darei meu jeito. O senhor vai me ajudar, não é?
_ No que for preciso, Dona Sara. Meus filhos e eu estamos as suas ordens.
_ Obrigada.
Um ano depois ainda às voltas com as reformas eu já podia ver bem o fruto do meu esforço. Uma cerca nova, um barracão no lugar do rancho servia como garagem e oficina. A casa quase toda reparada e o jardim recuperado. Também aprendi a andar a cavalo e a guiar uma charrete. Junto a Prefeitura consegui que colocassem um poste de luz e consegui também que fizessem a instalação do telefone e da internet. Estaria ligada ao mundo exterior em segundos se eu quisesse, todavia não sentia vontade de ligar o laptop. Fiz umas chamadas telefônicas para os meus filhos só para dizer que estava bem e saber como iam meus netos. Nenhum deles, de fato, se preocupava comigo. Como iriam? Se eu nunca me importara com eles?  Para que ficar remoendo problemas? Já bastava deixá-los onde estavam para que eles voltassem no tempo devido.
O telefone tocou por volta das dez horas da noite. Eu estava dormindo. Com pouca vontade levantei para atender.
_ Alô!
_ Oi, Sara, como você está?
_ Quem é? Perguntei com voz de sono embora minha mente estivesse totalmente alerta. Havia reconhecido a voz. Sabia o que me aguardava.
_ Ué, já não me conhece mais. Pensei que você fosse ligar, pelo visto, agora arranjaste outra diversão.
_ O que você quer a essa hora, Adolfo?
_ Estou com saudade. Você não?
_ Posso ser sincera?
_ Claro que não, Sara. Toda vez que você é sincera termina me desapontando.
Aquele homem foi, durante quatro demorados anos, o meu inferno. Eu o conheci num restaurante depois da morte de meu marido. Saímos algumas vezes e eu me apaixonei. Aos poucos fui percebendo que ele queria sombra e água fresca, nada mais. Era dinheiro para comprar ternos, para sair, para pôr gasolina, para jantar com os amigos etc. Eu bancava, até que fechei a torneira e o mandei pros quintos dos infernos. Infelizmente, ele não foi e continuou me perseguindo e eu o continuei aceitando. Demorei muito a me desapaixonar, sempre caía em tentação para em seguida me arrepender. Pensei que estivesse curada. Fiquei nervosa.
_ Você pode esperar um instante enquanto ligo a luz, Adolfo?
_ Claro, querida.
Ali no escuro tudo parecia irreal. Liguei a luz e olhei os cômodos da casa, parecia que eu estava num filme em câmera lenta. Eu via a sala, cada detalhe dela. A parede que ainda faltava terminar de pintar. As paredes já pintadas. Os móveis e acessórios recém comprados num antiquário. O sofá vermelho vivo com almofadas coloridas. O tapete, os quadros dependurados nas paredes. A cozinha em estilo americano toda arrumada, meu quarto. Fechei os olhos vi a cerca nova que eu mesma havia construído, ainda tinha as mãos machucadas de puxar o arame. A pequena oficina que eu montara com tanto esmero, onde passava a maior parte do meu tempo fazendo estantes, prateleiras, lixando e pintando, aprendendo e gostando de trabalhar com vários tipos de madeira. Visualizei o meu jardim. A minha terra. Dei-me conta de sua amplitude. Como ela ficava mais bonita ao entardecer e ao amanhecer. Senti um profundo amor por aquele lugar, uma ligação como nunca havia sentido. Um sentimento de solidez e de reconstrução. Eu fazia parte daquilo, eu fizera aquilo, eu era aquilo. Não tomava mais pílulas para dormir, nem para emagrecer, nem para as minhas longas e indefinidas depressões, nem para esquecer de mim. Suspirei e ao suspirar percebi que não estava mais nervosa e que o homem ao telefone era tão pequeno quanto desimportante.
_ Alô, estou de volta, Adolfo.
_ Nossa, pensei que não iria mais ouvir sua voz. Fiquei inseguro. Você sempre me faz me sentir assim. Sara, estou com tanta saudade de você.
_ Meu querido, que bom que você esteja com saudades. Não posso dizer o mesmo. Está tarde, preciso dormir, infelizmente, vou ter que desligar...
_ Não seja assim ... Sempre nesse papel de durona. Mas, eu conheço você. Eu me importo com você. Não quer saber como consegui seu número de telefone?
_ Não.
_ Tem certeza?
_ Sim.
_ Ah! Sara, por que você faz isso? Sei que você está mentindo, o nosso amor não vai acabar nunca. Deixe disso. Vamos esquecer nossas brigas. Eu preciso de você e você de mim.
_ Precisei. Amei. Não estou mentindo nem sendo durona. Estou com sono. Quero dormir.
_ Ah-Ahn. Encheu-se de pílulas outra vez?
_Não, em absoluto. Estou respondendo a você, Adolfo. Há algum tempo eu voltaria correndo para você e recomeçaríamos o nosso relacionamento doentio. Você precisa trabalhar, meu querido. Arranjar um bom emprego, parar de viver às custas de mulheres velhas, solitárias e tolas como eu. Precisa também entender que não é o homem mais gostoso do planeta e respeitar quando alguém diz que não gosta de você. Sei que você não é chegado a conselhos, mas aqui vai um... Vá arranjar um bom e antiquado emprego. Aproveite o ensejo e me esqueça!
Desliguei o telefone da tomada. Não poderia esquecer de ligá-lo no dia seguinte. Tinha feito as pazes com o mundo e comigo mesma. Várias vezes me fiz a mesma pergunta antes de adormecer: Por que demorei tanto para ser feliz?