CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

sábado, 19 de janeiro de 2013

BETO DAS TRALHAS






Beto das Tralhas, como era chamado na vizinhança, empurrou seu carrinho de porcarias pelo asfalto quente até a sombra salvadora de um pé de jambo nascido impune na calçada.
Sentou no meio-fio e encostou as espaldas no tronco da árvore sobrevivente. Puxou o boné sujo e rasgado para cima dos olhos. O pedaço de torta de frango que D. Cida, moradora da casa da esquina no final da rua, lhe dera ainda pesava na sua estremunhada barriga desacostumada com tais guloseimas.
O carrinho de Beto era a carcaça de uma geladeira com rodinhas, feita pelo amigo Silva, ferreiro de boa índole que gostava de ajudar os desamparados de Cristo.
Do outro lado da rua, um homem em pé na parada do ônibus limpava um dos sapatos com um molambo apanhado na coxia. O homem largou-o na calçada ao subir no lotação.
Beto acompanhou toda a cena. Viu o molambo estendido na calçada, se interessou por ele, mas estava tão inebriado com a torta que não tinha coragem para atravessar a rua. Depois, ele se lembrou de que o pano provavelmente estaria muito sujo e desistiu.
O molambo rolou com o vento, estremeceu caindo no esgoto aberto, assim desfalcado de suas barras protetoras por outro catador de lixo provavelmente.
A rua estava vazia devido ao horário, mas mesmo que estivesse cheia ninguém se incomodaria com um catador de lixo tirando um cochilo.
O jambo abrigava uma dezena de pássaros e alguns morcegos dorminhocos. Aqui e ali os morcegos estridulavam irritados talvez com algum raio de sol ou pelos vizinhos emplumados que voavam muito perto.
Beto adormeceu. Sonhou que havia ganhado na loteria e que estava dirigindo um carro novinho em folha. No sonho ele tinha uma casa enorme cheia de modernidades tecnológicas. Silva, o ferreiro, estava com ele no carro. Iam para o Rio de Janeiro curtir o carnaval. Os dois seguiam de carro por aquela mesma rua, alguns moradores acenavam, outros estavam visivelmente invejosos de Beto.
O catador sentiu o ligeiro escorregar de algo por seu rosto. Era quente. Com os olhos ainda fechados ele passou a mão no rosto. A mão ficou molhada. Ele abriu os olhos examinou a mão. Algum maldito passarinho estava com diarreia. Agora teria mesmo que levantar e procurar um lugar para lavar o rosto.
Beto não queria sair da sombra, queria continuar sonhando. Lembrou-se do molambo do outro lado da rua que tinha caído no bueiro. Menos mal, teria apenas que atravessar a rua.
O bueiro continha água suja que fluía devagar de algum lugar para lugar nenhum. O molambo estava um pouco úmido. Beto se abaixou e o recolheu, passando-o no rosto e na mão. Isso feito enfiou-o no bolso e voltou para a sombra. Pôs o boné sobre os olhos. Ferrou no sono, sonhando novamente.
Beto, era um molambo e rolava pelas calçadas ao sabor do vento e dos pés dos transeuntes, nada o incomodava, de nada precisava.
Acordou com a mão dentro do bolso. Que sonho besta! Pensou. Esticou o molambo sobre as pernas. Tinha sido um bom lenço em outros tempos agora era um pedaço de pano  encardido e sem valor. Beto pensou um pouco sobre isso. O molambo fora um lenço agora era molambo, mas ainda assim tinha um valor para ele, Beto, e para o homem limpara o sapato. Aquilo tinha valor, sim, era útil antes de ser um lenço ou um molambo. Continuaria sendo útil mesmo se tornando um trapo.
Beto voltou a colocá-lo no bolso. Hora de seguir para o barraco da coleta, receber a mixaria e comprar alguma coisa para jantar. Uma melancia, uma manga, pão, manteiga, um litro de leite. Um banquete que ele faria com Belinha, a sua gata de estimação, ela iria adorar o resto da torta de frango que ele havia cuidadosamente embrulhado num jornal.
Beto atrelou-se ao carrinho cheio até a tampa, pesado. A rua também dava sinais de ter despertado da sesta. Os carros voltavam a passar, bem como as pessoas. As portas das lojas se abriam e as domésticas saiam com suas sacolas para comprar qualquer coisa para a merenda da tarde dos patrões.
Ele ergueu os braços para esticar os músculos teria que fazer muita força para puxar sua carga. Em poucos minutos estaria na avenida. Enfiou bem o boné na cabeça. Seguiu. Os carros buzinavam a sua volta. Alguns motoristas gritavam impropérios. 
Beto das Tralhas ia sorrindo alheio às provocações. Compreendera seu sonho. Nada o incomodava, de nada precisava. Era um molambo mil vezes sorteado.