CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

domingo, 6 de janeiro de 2013

HISTÓRIA SEM FIM







Francisco Cândido da Silva era a pessoa por excelência. Funcionário Público concursado (entrou no concurso apostando contra si mesmo, pois achava que não tinha condição alguma de passar em concursos). Alegre, de bem com a vida, pai amoroso e marido exemplar. Mas, tinha um problema não sabia ficar com a boca fechada, fazia comentários os mais inconvenientes e intempestivos, nos locais mais indevidos, se bem que profundamente sinceros. Por causa disso as pessoas riam dele à socapa e sofria toda sorte de retaliações sem se dar conta.
Certa vez ouvindo que o seu chefe iria viajar com os filhos pra Disneylândia, soltou na lata do sujeito essa heresia: _ Queria poder levar meus filhos a Disneylândia. A prefeitura está pagando bem ao senhor!
No dia seguinte foi transferido para trabalhar numa escola da periferia. Ele foi sem questionar, como se nada tivesse acontecido. De fato, para ele nada tinha acontecido, solvia mentalmente esses acontecimentos em sua vida funcional  com um: _Precisam de mim noutro lugar!
Francisco não entendia os meandros da vida pública, não porque fosse imbecil, deficiente mental, mas porque simplesmente não se ligava nessas coisas. Ele falava sempre com sinceridade sobre aquilo que pensava fosse bom ou ruim, era uma característica de sua personalidade. Não negaceava o que sentia. Sempre ia ele alegremente desembuchando suas verdadeiras percepções.
Sua esposa, Rosa Amélia, advogada aposentada, uma mulher muito simpática, inteligente e risonha adorava a sinceridade crônica do marido. Afirmava: _ Ele me põe em cada camisa de onze varas! Mas, é sincero em tudo o que fala. Não mente. Casei com um homem em tanto, orgulho meu!
Um dia Francisco foi guindado por alguns amigos da onça como representante dos funcionários da escola e como tal, levado a participar de uma festa beneficente, organizada em prol da comunidade de entorno. Pobre ajuntamento de casas com esgoto a céu aberto e nenhuma assistência governamental. A festa serviria apenas para emoldurar os conchavos políticos que ali se realizariam e avaliar as oportunidades políticas e financeiras a serem extraídas. Estariam presentes vários parlamentares, os presidentes de associação de moradores e de algumas organizações não governamentais, além, é óbvio, da imprensa.
Francisco foi intimado a fazer um discurso. Ora, ele nunca tinha feito um discurso antes e achou que seria um bom momento para falar sobre certas coisinhas que lhe incomodavam no serviço e que poderiam ajudar. Apossando-se do microfone, agradeceu a oportunidade e lançou:
_ Aproveito o ensejo para pedir aos parlamentares presentes que revejam com carinho e seriedade a situação de miséria em que se encontram algumas escolas desse município. Tem escolas que funcionam por obra e graça de Nosso Senhor Jesus Cristo e pelo esforço individual de algumas pessoas que praticamente pagam para trabalhar e mantê-las funcionando. Tem Secretário Escolar que compra material de expediente para ter pelo menos uma caneta, um lápis, uma borracha, um tubo de cola, material essencial de uso diário. Conheço coordenadores de creche que compram até papel higiênico para as crianças...
E foi por aí afora desenrolando um rol de francas e honestas reivindicações. Os amigos de Francisco saíram à francesa do evento temendo as repercussões. Os jornalistas loucos por fofocas em primeira mão, estalaram os flashs, aproximaram os microfones e gravadores não querendo perder uma vírgula.
Após vinte e sete minutos de um discurso verdadeiramente inusitado, humilhados pelas palavras emocionadas e sinceras de Francisco os idealizadores da festa não tiveram coragem sequer de desligar o som ou retirá-lo à força do palanque. O público aplaudiu fervorosamente. Até que um parlamentar mais ágil alçou-se ao palanque e magistralmente tomou o microfone de Francisco e agradeceu as gentis palavras, comprometendo-se “in limine”  estudar todas as suas reivindicações.
Francisco desceu do palanque sendo então, acossado por uma multidão de fotógrafos, jornalistas, pessoas do povo emocionadas e demais parlamentares que não querendo ficar para trás, cavoucavam-lhe os minutos de fama.
Com a alma lavada Francisco foi para a casa contar o feito a sua ilustre esposa que começou a rir.
_ Você não tem jeito, Chico! Espera pra ver o que vai te acontecer amanhã.
_ Por que você é tão pessimista com as coisas, Melinha? Você precisava ver como as pessoas ficaram. Tinha gente com lágrimas nos olhos.
_ Era porque eles estavam com pena de ti, meu amor. Estavam emocionados porque sabem o que vai te acontecer.
_ Sinceramente, eu não te entendo, Melinha. Hora você me apoia hora você me coloca a zero. O que eu fiz foi só falar o que eu sinto e penso como sempre faço.
_ Eu sei, meu querido. Eu sei e eu não estou reclamando de nada, não! Só estou dizendo que dessa vez você se superou.
E ela teve um acesso de riso como nunca tinha tido.
No dia seguinte o discurso comovente de Francisco estava em todas as emissoras de televisão. O telefone não parava de tocar. Gente querendo entrevistá-lo, querendo fazer reportagem. A vida de Francisco foi vasculhada de cima abaixo. Tiraram fotos dele com a família.
Francisco falava e falava, destecendo candidamente as mentiras que anos o governo levara para montar, colocando certas pessoas em palpos de aranha. Criando questionamentos e dúvidas.
Dona Rosa Amélia não conseguia conter o marido que agora parecia um papagaio na areia quente, falando e falando.
As eleições se avizinhavam e Francisco, sem dúvida, seria popularmente um nome certo à vereança. Já era comentário de pé de ouvido, no boca a boca.
Francisco que não se ligava nessas coisas, sentia-se radiante, estava ajudando de alguma forma a melhorar sua cidade, o país.
Dona Rosa Amélia, preocupada com as proporções que o caso havia tomado, adoeceu. Não era doença de corpo, era doença de alma. Era medo. Um medo profundo que sucedesse algo ruim ao seu Francisco - uma bala perdida, um acidente de carro. No auge do pavor ela chegou a imaginar o seu marido perdendo a voz, ou pior, a sinceridade. Então, implorou a Francisco para viajarem, talvez assim ela melhorasse. Ardilosamente, ela cooptou o médico para que sugerisse a Francisco que talvez noutros ares ela se curasse. O médico acedeu e Francisco acabou concordando. A despeito de todas as coisas diferentes que aconteciam na sua vida, ele não perdia o foco: o interesse e amor pela família. Ele se preocupava com a doença de sua mulher, sua tristeza, seus choros e achaques. Ele queria vê-la bem, viajariam. Pediu licença no trabalho para acompanhar a mulher, o que foi aceito incontinente.
Dois meses depois eles retornaram. Francisco já era notícia de ontem. Aqui e ali tinha um telefonema, alguém se lembrava dele. Com surpresa recebeu a notícia que havia ascendido a uma chefia. Agora, seria chefe de transportes e de compras, trabalho estafante que ele aceitou tranquilamente.
Dona Rosa Amélia, definitivamente curada, com a vida voltando à normalidade, tratou de colocar os filhos em colégios particulares.
_ Melinha! Chamou Francisco certa noite depois do Jornal, deitado na cama.
_ Sim, Chico.
_ Sabia que você estava certa desde o começo.
_ Como assim, do que você está falando?
_ Eu preciso aprender a me calar, a não dizer tudo que me vem a cabeça.
Dona Rosa enrijeceu por dentro. Será que o marido tinha finalmente perdido aquilo que nele ela mais amava?
_ Como assim, Chico?
_ Esse negócio adoeceu você. Nossa vida ficou muito confusa depois daquele discurso. Estou feliz com o cargo que me deram, acho que nem merecia tanto. Embora sabendo que nada disse que não fosse o que eu vi e vejo, as pessoas demoram muito para mudar, né?
Dona Rosa continuou calada. Aproximou-se do marido e colocou a mão sobre o seu ombro. Ele apertou a mão dela e sorriu.
_ Que tal se eu escrever?
_ Escrever o quê?
_ Um livro, mulher. Ao invés de falar, eu escrevo tudo o que penso. Que tal?
Dona Rosa Amélia a mais sábia e amorosa das esposas assentiu.
_ Faça isso, meu querido, quando você tiver terminado nós publicamos.
_ Melinha, você é tão inteligente, qual o nome que dou para o livro?
Ela olhou longamente para o marido. Seu amor, sua vida, pai dos seus filhos. Íntegro, puro. Um homem que ela iria morrer amando.
_Põe um nome bonito e cheio de mistério.
_ Vixe! Você é boa nessas coisas, sugere um.
_ “História sem fim”
_ Mas, isso não foi nome de um filme?
_ Mas cabe perfeitamente, não é? Pense. Você vai ver que estou certa.
Francisco se recostou nos travesseiros dando tratos a bola. Tinha uma mulher formidável. Só ela mesma para pensar numa coisa dessas. Ela estava certa como um livro desses teria fim?