CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

sábado, 5 de janeiro de 2013

CONSTELAÇÕES





O avião decolou finalmente, erguendo-se da pista como se fosse um dragão velho, cansado e rabugento. Entre chiados, gemidos e bufados seguiu seu voo.
Não havia mais o que olhar. Não era pelo avião que eu estava ali, era por meu filho que estava em seu interior. Jonas perseguindo a baleia sendo engolido por ela.
Estremeci. Temerosa por ele, triste por mim.
Minhas mãos pousavam firmes na balaustrada da janela. O alumínio frio despertava-me evocações.
Imagens de um tempo em que eu muito nova me debruçava impunemente sobre os parapeitos das janelas para receber a brisa do inverno catarinense, a blusa decotada de malha pouco protegia do frio, mas a ideia não era essa, estufar os peitos, sim, a isca onde os rapazes sequiosos seguravam a mirada e desejavam com as mãos.
Tempos de aventuras. Liberdade para transar com quem quiser e beber chimarrão e vinho ao pé da fogueira na beira da praia, cantando, tocando violão, sem preocupações, todos juntos, ex e futuros namorados, amigos e inimigos.
Para nós não havia licenciosidade, éramos como bichinhos aprendendo a caminhar em bando. Ainda nos mantínhamos inocentes apesar da aparência coquete, do ar desleixado e dos nossos fortemente discutidos ideais. Bravatas, gritos e beijos por todos os lados. Éramos apenas jovens.
O futuro sistematizado, convencional, um lar, filhos, trabalho, contas, nos era tão distante, quanto uma viagem estelar.
Um belo dia eu conheci Roberto, o pai do meu filho, na Faculdade. Eu estava numa parada de ônibus, conversamos e nos apaixonamos. Três anos depois estávamos casados. Um ano após nosso casamento Rodrigo nasceu.
Agora, meu único filho estava indo estudar na Inglaterra. Talvez ele fique somente o período do curso, talvez encontre a mulher de sua vida, talvez realize as suas ambições. Talvez nem retorne. Ou o faça de quando em vez para ver quão mais velha eu e seu pai estaremos.
Alisei o alumínio frio. Um dia também eu parti deixando minha mãe, meu pai, meu gato de estimação. Eu tão feliz, eles com tanta saudade. A saudade deles eu não me dei conta. Só percebi quando a saudade foi minha.
Abotoei o casaco, estava muito frio e ventava. Coloquei os óculos escuros. O avião era só um ponto no céu que logo desapareceria.
Um ponto não é medida de nada, dizem. É mentira. A vida está cheia de pontos de inclusão, exclusão, alteração, restauração, avanços e recuos. Pontos de valor em nosso caminho. Às vezes, somos os pontos.
Retornei sobre meus passos em direção ao estacionamento. Penso que a vida é como o mar no seu ir e vir. Estou vivenciando esse preciso instante, daqui a pouco estarei vivenciando outro e assim seguimos, prosseguiremos rumo ao fim irrevogável de nossa existência.
Voltar para casa será o meu próximo momento. Lá eu encontrarei o conforto dos odores, das fotos, das músicas, das lembranças, do abraço de Roberto, que não quis vir para não chorar.
Ele sente bem mais do que eu a separação e eu já a sinto muito. É fato, ele sente e se ressente, o meu companheiro de pontos.
Mas, então eu pedirei a ele que me abrace, certamente chorarei no braço dele até dormir. Cuidaremos de nós e um do outro. Pacientes, aguardaremos as infinitas possibilidades que surgirão ao longo da espera.
Outros instantes. Novas constelações. O mesmo fim.