CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

DA POESIA E DA CANÇÃO



A poesia tenta condensar em palavras o sentir o mundo. Um transporte vivencial se estabelece entre quem escreve e quem lê. Os versos sejam sobre um objeto ou um ser, seja sobre uma situação particular ou geral, trará em si elementos da percepção, com evocações e sentimentos acondicionados numa forma em que a técnica pode ser pré-estabelecida, mas não deve ser padronizada, de palavras e rimas ou só palavras. O equilíbrio entre a forma e o conteúdo é que dará a impressão de movimento à estrutura verbal. Quanto mais refinado esse equilíbrio mais se reforça o elo entre o que foi pensado e dito e o que foi sentido; entre a imagem criada e a realidade recriada.
Não existe poesia ruim o que existe é não poesia. Um amontoado de palavras completamente sem nexo, que emocionam e são compreensíveis somente a quem as criou. Vê-se muito disso. O uso de palavras fora do contexto que são utilizadas apenas porque rimam ou porque são consideradas impactantes. Como também, o mau uso ou uso excessivo das figuras de linguagem que acabam tornando os versos de sentido contraditório, sem significado ou em desacordo com o significado inicialmente pretendido. Isso não é poesia, não é nada. É, sim, uma cacofonia sem significado, um amontoado de palavras que só agradam ao ego de quem as amontoou ou de quem, não querendo se sentir um incompetente poético ou ignorante da língua, as toma por poesia e ainda as enaltece.
Quando se faz uma canção aplica-se o mesmo que ao fazer uma poesia com o acréscimo de uma particularidade: a métrica. A métrica que está na melodia. A letra, se feita depois da melodia deve obedecer à métrica musical, se feita antes, cabe à melodia se ajustar ao equilíbrio poético.
A letra de uma canção não precisa necessariamente ser uma poesia, basta ter sentido; e uma poesia obrigatoriamente não será a letra de uma canção. Tem poesias que jamais se tornarão canções porque não haverá quem as possa musicar. Também, haverá músicas sem letras e que jamais as terão, mas nem por isso deixarão de ser canções.
 É comum se usar, por exemplo, “os versos cantados do poeta tal”, daí alguém põe uma música de fundo enquanto outra pessoa recita os versos. Isso não é fazer canção, não se está musicando nada, nem cantando.
O processo de união entre melodia e letra não é simples, requer dentre outras coisas, sensibilidade; mas pode ser muito simples até tosco, quando quem faz não tem compromisso com a arte, apenas consigo mesmo
Quem escreve uma poesia com cuidado e zelo, não se contentará em vê-la musicada de qualquer jeito, da mesma forma, quem cria uma música não se contentará em arranjar para ela alguns versos de pé quebrado, desconexos, esdrúxulos, sem sentido.
Porém, o que está aqui dito não se aplica aos ditames mediáticos da tão propagandeada “cultura musical e poética”, em vigor neste país. Reserva-se a um grupo seleto de pessoas que ainda se preocupa em praticar e cultivar uma habilidade anacrônica e incompensável, a Arte.
Carla Marzagão – Fortaleza, 18/12/2012