CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

VERDADES E REALIDADES




Fato acontecido há alguns anos atrás. Os personagens são: um caboclo, uma moça, um engenheiro e eu.

Chegamos por volta das seis da manhã na estrada que dava para uma cidadezinha do interior do estado. O meu amigo era um engenheiro agrônomo que tinha sido convidado pelo prefeito para dar uma palestra sobre utilização de adubos orgânicos e inorgânicos. Segundo o prefeito haveria a possibilidade de fazer contatos e contratos. Nossa empresa era pequena, estava começando agora, mas era organizada. Achamos o convite uma benção. Eu ia fazer a cobertura do encontro para por no site da empresa e divulgar nossos trabalhos.

Ele parou o carro e perguntou:

_ Moço, onde fica a Prefeitura?

O caboclo apeou do cavalo. Aproximou-se do carro e esticou a cabeça um pouco para o lado.

_ Acuma é?

_ Onde fica a Pre-fei-tu-ra? Repetiu meu amigo em alta voz.

O caipira virou-se de frente e falou.

_ Nóis né môco, naum! Vossença quer saver da Pre-fei-tu-ra, né? Siga em freinte e vá, vá, vá indo que adispois da primeira curva, vossença vai vê uma praça e adispois a igreija e adispois um prédio alto amarelu cum vermêi, pruquê nosso prefeito é das isquerda. É lá que é a pré-fei-tu-ra. E deu uma bela cuspida que provavelmente acertou a porta do carro.

Meu amigo agradeceu e nós fomos lá, seguindo as orientações do capiau. Encontramos a curva e a praça, vimos a igreja, mas nada de ver o tal edifício amarelo com vermelho onde seria a prefeitura. Paramos numa mercearia que estava abrindo e meu amigo novamente perguntou.

_ Moça, onde fica a prefeitura?

A moça parou de varrer a calçada. Esticou os lábios e entre beiços falou:
_Bem ali.

Nós olhamos e só vimos um prédio baixo em tom cinza, parecia mais uma pequena escola do que a prefeitura.

_ Ali naquela casa de muro cinza? Eu perguntei.

_ Lá mermo. Ela respondeu.

Aí meu amigo falou:

_ Mas nós encontramos com um senhor lá atrás que disse que a prefeitura era um prédio alto amarelo com vermelho.

A moça desatou a rir. Meu amigo ficou nervoso, acredito que na hora ele pensou que tivéssemos caído em algum tipo piada do interior. Tínhamos mesmo. Daí ele, um pouco rude, perguntou:

_ Qual foi a graça, moça? Quero rir também.

_ Ô moço é qui o sinhô num conhiece aqui naum. Esse prefeito menti tanto qui ele diz pra todo mundo que vai reformá a prefeitura, vai pintar de amarelo e vermei, vai plantar uma grama e por uns cartaiz. Vai criar um tau di centro di acomunidade pra nóis e trazer os medico da capitá pra cá. Diz que vai construí uma escola nova e muderna. Mais ele diz isso desde que a campanha é só conversa mole e ai nóis tira brincadeira com ele e cum quem acredita nas doidice dele.

O meu amigo, então, perguntou para a moça.

_ Mas se vocês já sabiam que ele mentia por que votaram nele?

_ E nóis tinha outro? Era ele ou outro pió qui ele.

_ Vem cá, vocês aqui têm muita criação de aves e gado?

A moça outra vez caiu no riso.

_ O prefeito tem umas vaquinhas e uma granja. Aqui nóis tem nada naum. É só mesmo uma plantaçãozinha de feijão, fruta, folha pra nóis mesmo. Eu qui tem essa budega. Aqui nóis num tem farmaça, nem correio, nem posto de saúde. A cidade é tudo isso aqui que o sinhô ta vendo.

A cidade só tinha uma rua, a que havíamos percorrido e que terminava abruptamente numa vila de casas pobres e pequenas. Tínhamos caído no conto do prefeito megalomaníaco. Resolvemos voltar. Não tinha nada mais o que fazer.

Na volta passamos pelo capiau que tinha sacaneado conosco. Meu amigo não conformado diminuiu a velocidade e mostrou o dedo médio pra ele.

O caboclo abriu um sorriso desdentado de fora a fora e sem perder o rebolado tirou o chapéu da cabeça em cumprimento.