CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

domingo, 9 de dezembro de 2012

SER A SUA METADE PERDIDA?

 
 
 
 
Não existe coincidência, existe sincronia.
Também não creio que eu esteja pela metade e “perdida” eu estou menos ainda, até porque tenho o mau hábito de dormir e acordar comigo mesma.
Não sou vegetariana. Eu bebo, eu fumo, eu danço, eu converso, satisfaço as minhas necessidades normalmente como qualquer pessoa. Não creio que nada do que eu faço possa me fazer totalmente má ou totalmente boa, porque não almejo perfeição, no máximo um excretar exitoso.
Como qualquer um, eu gosto de músicas que considero boas. Como alguns poucos outros eu gosto de ler e de escrever.
Meus avós paternos são parte da família Helena e parte de uma família italiana - desceram pelo Alto Amazonas e se estabeleceram no Norte do país. O meu avô materno era da família portuguesa Vaz Nunes, vinda de Açores, minha avó materna era mestiça meio índia potiguar, meio mexicana. Então na completude tenho parte índia, parte mexicana, parte judia, parte italiana, parte portuguesa - dessa mixórdia resultou a brasileira em mim.
Vivo cada dia o seu mal/bem, nada é cem por cento um.
Não ajudo, exemplifico. Não perco, transformo. Não cobro, regateio. Se me iludo e erro, vivencio causa e efeito até a entropia. A forma que encontrei para não sentir remorso ou frustração foi não ficar imaginando o “e se”.
Amo, com total responsabilidade sobre e, apenas sobre, o que eu sinto. Evito as brigas tanto quanto possível. A ofensa recebida é do tamanho que nós a percebemos. Observo a existência atentamente e me entristeço por reconhecer quão pouca é caridade dos homens  e do tempo.
Todo dia morro um pouco mais, não fico triste com o fato, mas agora, neste instante, não quero  a proximidade da morte, embora comprovadamente ela seja, ao final, nossa única amiga.
 Durmo tarde (uma da manha) e acordo cedo (às seis e meia). Trabalho como escrava, procurando me divertir na casa grande sempre que posso.
Não possuo bens materiais, possuo apenas o que está nas minhas memórias. Caso as perca deixarei de ser o que sou agora e a hipótese de me tornar outra pessoa não me deixa confortável.
As pessoas poderiam muito bem considerar o próprio cérebro como um universo infinitamente rico, intenso, fértil, acolhedor e apaixonante. Ele é aquilo que é, não somente uma mera imagem Dele, como também, a entrada para o Seu mundo. Ajudaria muito procurar se conhecer um pouco mais.
 Não frequento igrejas de qualquer espécie, elas não me dizem nada, prefiro ficar só e em meu silêncio orar com o mar, com os animais, com as plantas ou com o céu, quando não estou bem comigo mesma.
Eu gosto das pessoas que riem com os olhos, agem como falam e sonham acordadas. Gosto de todas as espécies de animais tanto quanto das árvores centenárias. Faz-me bem um dia inteiro de chuva com bastante relâmpago e trovoada para curtir estirada numa rede, me balançando, com um lençol recém-lavado debaixo do queixo, sentindo o cheiro de terra molhada. Gosto de praia com pouca gente, em dia nublado. Gosto de algodão doce, chocolate meio amargo, macarronada, grão de bico e cerveja gelada.
Atraem-me a libertina e traiçoeira vibração da noite tanto quanto as corriqueiras grandes vaidades existentes debaixo do sol. Curto conhecer locais e de saber suas histórias. Procuro ouvir o que não foi dito pelas coisas e pelas pessoas.
As incríveis capacidades de dissimulação e de prejulgamento do homem ainda me surpreendem, não por existirem, mas pelas muitas formas como delas os erros se projetam.
A intolerância sempre traz belicosidade tanto quanto a discriminação ou a ignorância. A mentira e a omissão ficam para os ineptos, tanto quanto o desamor e o desrespeito para os odientos natos. A baixa estima representa a inutilidade. Os excessos são sempre constrangedores e deselegantes. Todavia, acredito piamente que o nosso maior pecado e também o maior obstáculo ao nosso crescimento seja a inveja. Um dos legados que nos "aprouve" desde o Edem e um pecado que se reconhece apenas no outro.
E como sou um ser humano admito a existência de tudo isso em mim, por inerência.
Sei que não sou a metade perdida de alguém porque olhei para mim e, após escrever tudo isso, eu vi que nada me falta. Mas, acredito nos sincronismos dessa nossa curta caminhada.