CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

sábado, 1 de dezembro de 2012

ALMAS GÊMEAS



“Zelador desconfia que proprietário de Flat está morto e chama a polícia. Ao chegar ao local a polícia encontrou o cadáver em estado de putrefação. O delegado responsável acredita que foi suicídio,  pois foi encontrado um bilhete, como também veneno espalhado num móvel e no corpo da vítima, mas não descarta outras possibilidades,  embora não haja evidência de um possível homicídio. O legista afirma que a morte pode ter ocorrido há quatro dias ” Jornal de Domingo.

QUATRO DIAS ANTES...

Lucrécia Bandeira da Silva. Ela leu seu nome no cartão de visita e não gostou.  O Silva era um estorvo, nome comum para quem se acha incomum. Não combina.
_ Vai ter que mudar o nome...
_ Mas, foi a senhora mesma que me deu o nome. Não está correto?
_ Está corretíssimo, mas eu quero mudar, Vai ficar Lucrécia B.
_ Senhora, com todo o respeito, mas “Lucrécia B.” no cartão de visita não vai soar estranho?
_ Estranho não, enigmático!
_ Enigmático, pois sim...
_ O que o Sr. Disse?
_ Como queira, senhora. Vou mudar o nome.
_ Essas mulheres têm titica de galinha no cérebro, onde já se viu fazer cartão de visita com um nome desses? Já pensou! Meu nome é Lucrécia B. de “bisca”, de “burra”, de ...nossa que “bundão” essa Lucrécia tem! Pensou o atendente da gráfica.
_ Obrigada. Passo daqui a duas hora para os pegar.
_ Estarão prontos, Senhora.
E Lucrécia saiu abanando a bunda, apertadinha num  elegante tubinho estampado. Estreando os seus novos óculos escuros da Gucci. Calçava scarpins cinza para combinar com a bolsa. Deveria ter uns trinta anos, mas o seu aspecto era de vinte e dois. Um metro e setenta de altura, corpo perfeito. Ela sabia que era muito bonita e sexualmente atraente. Levava vantagem.
Passou as mãos nos curtos cabelos pretos cheios de gel. Ela não gostava que fios do seu cabelo caíssem em qualquer lugar.
Abriu a bolsa, tateou o saquinho que continha sua liberdade apenas para conferir.
Entrou no edifício próximo, um elegante flat na avenida que dava acesso à praia. Foi direto para o terceiro andar. Pegou as chaves e entrou. O proprietário chegaria em trinta minutos. Ela teria tempo para organizar as coisas com cuidado, inclusive os ingredientes para o coquetel.
_ Olá, alma gêmea, chegou mais cedo?
_Olá, Marcos. Pois é, passei na gráfica para encomendar meus cartões de visita.
_ Trouxe o dinheiro da semana?
Calhorda, nojento, salafrário, canalha. O que foi que eu vi nesse cara?Com esse papo furado de alma gêmea. Sou apenas mais uma de suas putas. Eu merecia muito mais. Poderia ter parte nesse negócio. Mereço ter um homem de verdade, não um cafetãozinho de merda. Você nem tem ideia do que eu sou capaz, Marcos. Ela disfarçou os pensamentos com sua costumeira simpatia.
_ Claro, Marcos. Como poderia esquecer? Aqui estão seus novecentos reais.
_ Só?
_ Achou pouco? Eu fiquei menstruada, lembra? Não encontro muitos clientes nessa fase.
_ Semana que vem você vai me dar o dobro disso, preciso pagar umas contas.
_ As outras meninas não estão trabalhando também?
_ Isso não é da sua conta. Incomode-se com a  sua parte. Aproveite e faça alguma coisa de útil. Prepare um daqueles coquetéis pra mim, depois um "stripzinho" que o papai aqui está meio estressado. Eu quero ver se meu material está em ordem.
No começo, quando ele ainda morava num quitinete vagabundo no subúrbio, Marcos tinha sido gentil e atencioso com ela. Ele estava iniciando o negócio e ela era a ninfetinha mais gostosa da comunidade. Foi fácil cooptá-la, ela se apaixonou perdidamente por ele. Era boa de cama, vaidosa, acabou se tornando “seu pau para toda obra”. Passados oito anos e com mais cinco meninas agenciadas, não havia mais segredos entre os dois, nem amor.
Ela foi para a pequena cozinha em estilo americano  fazer  o coquetel com os ingredientes previamente preparados.  Colocou os copos na bandeja e levou-a para a mesinha de centro. Marcos estava deitado num dos sofás brincando com o controle remoto do LCD. Um perfeito idiota, oportunista, filho da puta.
Ela serviu o coquetel e começou a tirar a roupa. Marcos enfiou uma das mãos nas calças. Excitava-se facilmente com um strip-tease. Sorveu o coquetel sem tirar os olhos de Lucrécia que serpenteava, dançava, se acariciava enquanto tirava a roupa bem devagar.
De repente os olhos dele reviraram. Ele engasgou começou a tossir e sufocar. Lucrécia continuava dançando, agora com os olhos fechados.
Marcos ainda tentou gritar, mas o efeito do veneno foi mais rápido. Lucrécia ouviu o corpo e o copo caírem ao chão. Abriu os olhos.
O cafetão estava estatelado com os olhos quase saltando das órbitas, a língua empretecida saia por um dos cantos da boca juntamente com uma baba branca, grossa e espumosa. Ela colocou luvas cirúrgicas que trazia na bolsa. Meteu a mão no bolso da calça dele e retirou a carteira estufada com notas de cem, levava ali quase três mil reais sem contar o dinheiro que ela havia dado. Resgatou somente seus novecentos reais, deixando o restante.
Pegou o “bilhete de suicídio”, um bilhete que ele havia escrito para ela há algum tempo atrás, quando ainda eram “amigos” e que ela tinha guardado como recordação, onde estava escrito apenas: “Estou de saco cheio”, colocou-o sobre a mesa usando a carteira como peso.
No chão perto do corpo colocou o saquinho contendo os restos do cianureto não sem antes pingar um pouco do pó sobre a mesa, na borda do copo e nos dedos da mão direita dele. Levou o outro copo para a cozinha lavou e guardou. Limpou com um pano úmido o balcão, a geladeira, a pia todo os registros possíveis de sua passagem. Vestiu a roupa, calçou os sapatos e saiu.  
Seguiu para a sala de segurança. Aquela hora estaria vazia.  Substituiu a fita de VHS por uma já montada. Ajustou o timer do aparelho para reiniciar a gravação em cinco minutos. Trabalho perfeito para uma segurança de merda.
Dentro do elevador ela retirou as luvas, guardou-as e  ligou para a gráfica.
_ Alô, é Lucrécia. Meus cartões estão prontos?
_ Estão, pode vir pegar.
_ Lucrécia B. bem que poderia ser Lucrécia Bórgia. Pensou e sorriu.