CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

domingo, 18 de novembro de 2012

LINHAS TORTAS DO DESTINO






Olhou-se demoradamente no espelho. As rugas de expressão aprofundavam-se. O tempo era devastador. Enfiou os dedos no pote de creme e passou circularmente pelo rosto. Penteou os cabelos, escovou os dentes. Passou perfume. Cortou as unhas. Vestiu sua melhor roupa. Estava bonito, pensou.
Pegou seu carro, um gol modelo antigo e seguiu para o estúdio, onde era esperado. Fez todas as gravações. Saiu tudo perfeito. Pegou o violão, antes de voltar para casa iria passear na praia, no calçadão. Ia tirar uma onda, bem que merecia.
A vida era linda. Ele colocou os óculos escuros. Sentou-se a mesa de um quiosque, pediu um chope gelado, queria bem gelado.
Em alguns dias ele não seria alguém anônimo, seria o Sr. Sucesso. Seu CD estava finalmente pronto. Com a benção da madrinha, amante  e produtora não tinha como não ser sucesso.
Uma mocinha de mais ou menos dezessete anos estava paquerando com ele. Ele sorriu para si mesmo. Logo teria dúzias daquele tipo. Fama é fama.
A menina sorriu e ele também.
Alguns momentos depois, ela se aproximou da mesa e se convidou para sentar. Ele não recusou. Estava de muito bom humor e queria curtir por antecipação.
Pediu mais dois chopes, se era o que ela queria ia ter. Eles poderiam se divertir um pouco, afinal de contas, por que não? Só  o que lhe impedia era sua consciência que tinha tirado o dia de folga. Ele não se importava com os olhares críticos que algumas mulheres lhe davam. Alguns homens que passavam estavam invejosos. Ele sentia. A menina era bonita, burrinha, gostosinha. Só virtudes.
O garçom sacou a trama. Trouxe o cardápio. Todos ganham e saem felizes. É o mundo capitalista.
Ele se empolgou, conversava animadamente. A praia estava ótima. As pessoas eram bonitas, sorriam, aproveitavam a vida, passeavam. Mal sabiam eles que naquela mesa, completamente anônimo, um novo astro tinha iniciado sua ascensão. Perfeito.
Pediu um prato caro. Tinha o adiantamento do CD todinho para gastar sozinho ou acompanhado. Viúvo, os filhos adultos. Ele se bastava, sempre tinha se bastado. Tinha seu próprio apartamento, sua aposentadoria. Achava-se bom em tudo o que fazia, tanto que Deus ou a Providência o tinham presenteado com o sucesso tão sonhado.
O seu passado só dizia respeito a ele mesmo. Ele sabia e só ele sabia do que tinha sido capaz de fazer para chegar até ali. Ninguém poderia condená-lo porque ele não compartilhava suas intimidades com ninguém. Sempre dizia aos filhos: o que importa é a própria consciência. Subtendido que quem não tivesse consciência passaria muito bem, mas essa entrelinha ele, como pai, não diria a eles, porque certamente acabariam por descobrir sozinhos.
Fazer algo errado era uma opção, uma boa opção, às vezes. Diziam alguns, que tudo se pagava de alguma forma nessa ou noutra encarnação. Pois seria, então, em outra, porque nessa ele já tinha o prêmio.
Estendeu os braços acima da cabeça, espreguiçando-se. Perscrutou o horizonte. Só viu coisas boas. Dinheiro, mulheres, amigos, viagens, shows. Suspirou.
A menina estava com a boca suja de lagosta e creme. Ele se imaginou lambendo o creme sobre o corpo dela. Sentiu que começava uma ereção. Sol, cerveja e mulher mistura que já deu bons sambas.
Era hora da sobremesa, ainda não estava farto.
Pagou a conta, pegou a menina pela mão. Tinha um motel ali perto dava para ir a pé. Aí ele lembrou que era o último dia dirigindo o velho gol, herança de uma amiga. Logo ele estaria com seu carro novo, um C4/5/6, qualquer coisa do gênero e não menos do que isso. Coisa de pobre ir para o motel a pé.
Arrastou a menina para o carro e foram para o motel. O funcionário na entrada recebeu uma molhadinha para não pedir documento. Estava na cara que a acompanhante era menor.
Fizeram amor várias vezes. Ele também era muito bom nisso, lembrou-se das antigas e da nova amante agradecidas. A menina também não era das piores. Mas, ele queria ir para casa, queria se curtir. Ligar para os amigos e contar “sem querer”, com “modéstia e humildade” sua vitória. Queria se sentir invejado, paparicado.
A menina perguntou se ele topava uma última cerveja, pensou em não aceitar, mas hoje era o seu grande dia... Aceitou. Ela pegou a bebida no frigobar e os copos que foi lavar no banheiro.
Ele ligou a televisão curtindo um pornô. O cara tinha pinto pequeno, a mulher uns peitos enormes. Que coisa mais grotesca.
A menina trouxe a bebida.
Na metade do copo ele dormiu. Ela pegou sua carteira, dentro quase cinco mil em dinheiro, alguns cartões de crédito, o relógio e a chave do carro. Ligou para o comparsa que esperava ansioso.
_ Como foi? Tudo tranquilo?
_ Tranquilo, vem me pegar. Disse a menina. Meia hora depois estavam num outro local.
_ Aquele velho se achava. Acredita que ele me disse que tinha gravado um CD e que ia ser o maior sucesso. Só falava nisso, o babaca.
_ CD, é? Cantando as músicas do Nelson Gonçalves?
_ E eu que sei? Não acreditei em nada.
_ Se ele está com essa bola toda, vai ficar uma fera quando acordar.
Eles riram.
O velho encheu-lhe o saco com a história da gravação. Presunçoso, metido a besta, metido a esperto. Tratou-a como uma vagabundinha, até chamou-a assim na hora do sexo. Ela não ia falar para o companheiro, pelo menos agora, que tinha dado um pouco a mais da droga. Um pouco, não, bastante. Talvez o velho nem acordasse. Mas eles logo iam ficar sabendo. Notícia “boa” chega depressa.