CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012




Luz e Sombra



Era noite. O chão da floresta estava coberto por uma bruma pálida que se contorcia por entre as árvores.  Os animais e insetos permaneciam quietos como se tivessem concordado em não perturbar os ruidosos pensamentos dela. 
Sentada na cadeira preferida, com o corpo levemente pendido para trás, a cabeça apoiada na parede ela cismava com seus pés calçados nas pantufas desbotadas.
Seus pés.
Isso fazia com que recordasse que um dia ela não os tivera, não nascera com eles. Agora, porém, ela os admirava e sentia-se como uma criança apesar de já estar com quase setenta anos. Feliz, infantilmente feliz por ter seus pés.
Quando ela fosse a cidade provavelmente as pessoas que a conheciam iriam se espantar e certamente iriam comentar que aquilo era ou um milagre ou algum tipo de bruxaria. Mas, ela não se incomodava com o que as outras pessoas pensavam. Não, ela não. Já estava acostumada com as piadas, a discriminação, o desprezo com o qual sempre fora tratada. E daí? Ela agora tinha seus pés.
Novamente olhou para eles, devagar descalçou as pantufas, verificou meticulosamente, minuciosamente as unhas, os dedos, entrededos, as solas e palmas. Beliscou a carne, sentindo doer.  Pés novos para um corpo velho, riu baixinho.
Não lhe ocorria perguntar como, nem porque, ela recebeu o presente de bom grado. Não havia comoção nem espanto, apenas alegria. Aquele pequeno milagre a confortava. O que havia de questionar?
Em algum lugar da mata uma coruja piou e seu bater de asas rasgou a noite num descenso. Ela inclinou a cabeça para a direita. Ouvia melhor com esse ouvido. O outro tinha o tímpano estragado por uma tapa de alguém que ela não lembrava, mas que tinha o direito de lhe bater porque ela era preta, pobre e aleijada.  
Preta, pobre, aleijada.
Sim, preta e pobre, mas não mais aleijada.
Fechou os olhos e agradeceu a Deus do seu jeito, sem lamúrias, améns, louvores ou orações brancas, simplesmente agradeceu pretamente com um “Obrigado, Senhor!” num sibilo baixo passado por entre as gengivas sem dentes.
Coçou a cabeleira desgrenhada e cuspiu.
Seus pés queriam andar e ela queria ficar ali mesmo e dar graças. Se nunca mais tivesse que ir a cidade não tinha problema, seria até melhor.
Abriu os olhos para a noite. O tempo começava a esfriar. Ela levantou-se da cadeira entrou na casa, fechando bem a porta. Estava velha demais para se dar ao luxo de perder uma boa noite de sono. Tomou um copo de água e foi deitar.
O colchão tinha se conformado ao seu corpo. Ela se cobriu todinha como fazia desde menina deixando só o nariz de fora para respirar livremente.
Acomodou os pés embaixo do cobertor. Eles ficariam aquecidos e ela provavelmente dormiria como um bebê. 
Seus pensamentos deslizaram para o passado como sombras fugazes, enquanto timidamente a luz da lua se esgueirou pelas frestas das telhas e iluminou seu corpo, um casulo.
Alguns dias depois alguém passou por lá, um caçador, um viajante, não fez diferença quem foi que entrou na velha cabana e encontrou-a morta.
O legista, porém, não soube explicar como ela, que nascera sem os pés, morrera com dois novinhos em folha.


Fortaleza, 12/11/2012 -  Os milagres acontecem em vários momentos da nossa existência, nos damos conta de um  ou de alguns, porém, da maioria nem tomamos conhecimento.