CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

FRACASSOS







Abriu-se o espaço. À noite milhões de estrelas brilhando. Insondáveis pontos de luz de milhares de anos vendo o presente inexpressivamente com os olhos do passado.
Ela descansou os cotovelos no peitoril da janela, deixando cair as mãos. O cigarro rolou por entre seus dedos numa espiral até a calçada seis metros abaixo. Ela resmungou um palavrão, enrugando a testa. Acendeu outro.
Poucos carros trafegavam àquela hora pelas ruas. Algumas pessoas conversavam na praça, o dono do quiosque recolhia lentamente as mesas. Um casal de namorados se despedia num longo e desesperado beijo. Ela encarou a cena com nostalgia e inveja. Há quanto tempo não era beijada assim?
Deixou a imaginação e as memórias seguirem seu curso, numa conversação interior cheia de justificativas e acusações sobre os seus fracassados relacionamentos. Protagonista e plateia de suas emoções, vítima e réu da própria consciência e inexperiência. Quem disse que a idade trazia experiência e sabedoria era provavelmente um velho tolo pouco inteligente.
Sorriu arrogante com esse pensamento para uma plateia imaginária que a aplaudia.
Olhou para a pele já um pouco enrugada de suas mãos. Deviam fazer cirurgia plástica nas mãos, pescoço, cotovelos e joelhos. A velhice se achegava inexoravelmente, sem pedir licença. O relogiozinho de suas células não parava de funcionar. Se a bateria dele acabasse, ela acabaria junto com ele. Quando se chega à idade em que já se viu praticamente de tudo, quando realmente se começa a se conhecer, é hora de morrer. Será que é algum tipo de vendeta divina?
O dono do quiosque colocou a última mesa para dentro e tratou de varrer a calçada, recolher os restos da noite. O casal se distanciava cada um para um lado. Bocas tensas, sexo úmido, prazer adiado, insaciado. Um carro parou. Alguém abriu a porta do carona, pôs meio corpo para fora e vomitou no asfalto o início do sábado.
Suspirou, soltando a fumaça pelas narinas. Quem a visse naquele instante poderia até pensar num quadro surreal de um dragão antropomorfo ou uma antiga locomotiva a vapor escapando pela janela de um apartamento. Ela deu uma gargalhada, gostaria de ser uma máquina. Uma ciborg assassina. Viu-se vestida num colant de couro preto brilhoso, botas longas, a pele de silicone, o cabelo de fibra sintética preta cortado curto. Um corpo sensual, fatalmente linda! O coração de aço, sem idade, sem remorso. 
A plateia imaginária aplaudiu novamente.
Ouviu um barulho abafado as costas. Voltou-se para ver seu cachorro latir e mexer as patas num pesadelo qualquer. Sacudiu os ombros e desviou de pensar nos pelos encanecidos do animal.
Foi até a cozinha. Colocou comida e água para o velho companheiro.
Voltou para a janela. Constatou que o dono do quiosque aproveitou a ausência dela para ir embora sem se despedir com o costumeiro e breve aceno de mão. Uma vez ela criou coragem, foi até lá, tomou meia dúzia de cervejas com ele. Mas não deu em nada, ele estava enrolado com uma menina de trinta e poucos anos. Ela ouviu a história e calou. Afinal, o que ele poderia ser para ela? Uma ponte? Um salva-vidas? Uma voz? Um amigo? Uma única noite de sexo? Nada. Nada.
Onde estava o romance? Nos filmes até as mulheres de meia idade se apaixonam e casam. Seus dedos andavam cansados de tanta solidão. Ela não merecia estar só, merecia? Não tinha filhos, netos, somente alguns poucos amigos distantes.
A plateia vaiou e bateu os pés. Ela chorou, comiserando-se.
Ninguém mais circulava na praça. Não havia carros. Só as estrelas acompanharam sua escolha, seu legado.
Ela acomodou-se no peitoril e saltou, com os braços cruzados sobre o peito. Apoteose.
A plateia uníssona aplaudiu seu desempenho.
Todavia no meio do salto tinha uma marquise mal projetada dois metros abaixo que impediu o epílogo. Quebrou apenas a perna.
O sábado naquela rua amanheceu festivo. Ambulância, polícia, vizinhos, ela.
_ Foi ela que saltou? Alguém perguntou com a morbidez dos bons e preocupados curiosos. Ela rapidamente respondeu.
_ Eu não saltei. Eu escorreguei e cai ao tentar pegar a carteira de cigarro que rolou do peitoril da janela. Foi um acidente. 
Uma jovem compadecida ajuntou: _ Tadinha, da tia. Todos concordaram.
Ela resmungou interiormente vários palavrões, certa de que não teria coragem para saltar novamente, mas teria para matar a improvável sobrinha. Tia uma ova!
A plateia fez que não viu a sombria verdade da deusa ex-machina.