CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Chupeta e Chupim




Raimundo Chupeta ganhou na loteria quase quatro milhões. Um cabra rijo, de corpo miúdo, sorriso escancarado com muitos dentes estragados, cabeça pequena, ombros caídos e pernas cambotas. Não era bonito, mas sabia passar saliva em toda gente. Ele dizia ter os colhões tão avantajados quanto seu membro escuro, dizia ainda tê-los entre parênteses, referindo-se às pernas curvas.

Daqueles primeiros referidos, não dos parênteses, vinha o apelido “chupeta”. Segundo Raimundo as “moça gostavis mucho” e sorria. Era uma típica figura acostada aos trâmites dos portos, um trabalhador braçal, que não se envolvia nunca em briga dos outros nem negava uma dose de pinga a quem quer que fosse. Sabia viver, talvez por isso o homem lá em cima o abençoou com a loteria.

Fosse porque fosse, Raimundo, taifeiro de cais num dia, dono de barco a motor no outro, sorria e agradecia à divina providência o bilhete premiado, enquanto distribuía doces para os pivetes. Todos ficaram felizes com a sorte dele e não estranharam o seu sumiço.

Meses depois Raimundo Chupeta foi encontrado morto na beira da praia da Laguna, desembocadouro marinho das excrescências da cidade grande, lugar ermo, paraíso dos catadores de papel.

Do barco a motor e do dinheiro de Raimundo nada se soube, menos ainda o que aconteceu ao cabra para aparecer morto putrefato.  Alguns acusaram a Matilda Dindin, dona da boate Chuva de Prata que Raimundo frequentava; mas, muitos falaram, à boca miúda, que ele tinha se suicidado. Por muito tempo rolou toda sorte de boatos, antes que o episódio caísse no esquecimento, sendo substituído por outro pior ou de mesma monta, o que usualmente costuma a ocorrer nas cercanias litorâneas, chacoalhando o populacho.

Cômico, embora trágico, foi o reconhecimento do corpo por uma das “moça que gostavis”. Não pela fisionomia de Raimundo abaulada e carcomida pelos peixes e caranguejos, sim, pelas pernas (os parênteses) que abrigaram até o fim os colhões e o membro entumecidos pela imunda água salgada.

O que passou despercebido a todos foi, no franzino enterro de Raimundo como indigente, que ocorreu logo após o rápido inquérito policial inconclusivo, a presença de um mulato alto, bem aprumado, num jeans lavado e a camisa passada que assistiu de longe à cerimônia fúnebre e que feliz se despediu do amante.

Um comentário:

  1. Carla
    Sua descrição dos detalhes me lembrou João Guimarães Rosa. Isso, misturado à crônica do cotidiano de Nelson Rodrigues me levou a umrealismo fantástico. Gostei muito. Voce tem um belo cartão de visita. Cheguei e me acomodei. Difícil sair. Abraços.

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