CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O SOBREVIVENTE


21h – Quinta-Feira

A noite estava agradável apesar da chuva leve que caía. Os transeuntes passavam tranqüilos para suas casas ou bares para encontrar os amigos. Alguns mendigos esquadrinhavam as latas de lixo e os becos. Adolescentes em grupos riam e falavam alto enquanto caminhavam pelas calçadas.
Da janela do quinto andar de um edifício antigo, um homem observava o movimento. Assobiava uma canção popular, distraidamente. Seus olhos pretos deslizavam por entre os passantes, a rua, os carros e os outros prédios. Seu apartamento era de dois cômodos. Resumia-se a uma sala, cozinha e um quarto com banheiro, tudo mobiliado parcamente. Dividia a sala da cozinha um balcão de alvenaria com um tampo de madeira que algum dia teve cor, mas que estava coberto por manchas e queimaduras de cigarro. A cozinha era pequenina. Tinha espaço apenas para o fogão, a pia, a geladeira e a máquina de lavar com seu varal estendido por cima. Uma pequena janela que dava para a área externa deixava entrar ar suficiente para secar as roupas. Na sala, um sofá cheirando a usado, um tapete rasgado numa das pontas, uma mesinha de centro com o vidro rachado. A televisão encostada na parede salmodiava a vinheta de um programa de auditório. Nas paredes nuas viam-se algumas rachaduras recém rebocadas e o piso precisava de uma boa esfregada para se descobrir de que material tinha sido feito. Tudo tresandava a decadência e abandono. O que se destacava ali era o homem vestido impecavelmente. Aparentava uns quarenta anos, era alto quase musculoso, um tipo bonito, tinha o cabelo preto cortado curto um pouco grisalho nas têmporas, rosto quadrado, forte e sobrancelhas hirsutas. Ele continuava em pé, observando a rua da janela, cantarolando.
O telefone soou um toque agudo e prolongado. O homem deixou que tocasse quatro vezes antes de atender. Sabia de antemão do que se tratava e não estava muito à vontade para cumprir o que a voz do outro lado da linha iria ordenar.

Lucy estirou os braços acima da cabeça juntou as mãos e moveu o corpo para um e outro lado. A bolsa atrapalhava seu exercício, mas não a incomodava de fato. O que estava deixando-a inquieta era aquela dor que se espalhava pela coluna. Em seus vinte e sete anos de vida nunca havia sentido sequer uma dor de cabeça. Agora parecia que suas costas iam se partir em mil pedacinhos. O ônibus estava demorando mais que o normal, ela estirou novamente os braços tentando relaxar, mas a dor persistia. Conformada, abaixou a cabeça olhando para os bicos dos saltos altos, sujos de lama da última poça. Será que fechara a loja direito? A dúvida dissipou-se quando refez todos os seus passos até a parada de ônibus. Ela trabalhava do outro lado da rua, numa Rotisserie. Não ganhava muito, mas dava para ir sobrevivendo. A chuva fina tinha parado. A noite pesava fria e úmida.
O ônibus fez a curva no cruzamento. As pessoas que também esperavam por ele foram se acercando. Ela, de repente, estava rodeada de rostos estranhos, expressões vazias, olhares perdidos. Sentiu um violento empurrão, o ônibus tão próximo, e caiu para frente. Alguém gritou, mas ela não ouviu.

Eli pedalava a bicicleta novinha que ganhara da avó. Tinha dezoito anos e estava muito feliz. Conseguira um emprego na loja do pai de um amigo da faculdade. Iria poder estudar com tranqüilidade, sem ter que ouvir os resmungos do pai e as lamúrias da mãe sobre as despesas cada dia mais difíceis de saldar. Pagaria sua faculdade, trocaria de turno, a mudança não seria um problema.
Eli acelerou. Aproximava-se do local onde os amigos o aguardavam com cervejas e sanduiches para comemorar.
O rapaz pedalou mais rápido, um pouco mais. Aquela bicicleta era demais, ele pensou. Já dava para ver sua turma a cerca de cem metros. Conversavam animadamente. O vento trazia pedaços de vozes e risadas. Eli sentiu uma forte dor no músculo da coxa direita, enrolou-se nos pedais. A bicicleta, em alta velocidade, cruzou a rua. O pneu dianteiro bateu na guia alta da calçada da praça rodeada por uma sebe viva. O choque fez Eli voar por cima da sebe, batendo com a cabeça nas pedras e no imenso tronco de uma árvore centenária. Algumas pessoas viram o acidente e correram para ajudar o garoto. Uma mulher aproximou-se e começou a chorar ao ver a cabeça de Eli, estranhamente amassada, coberta de sangue. Os olhos do garoto abertos, mudos num silêncio de incompreensão.

Elza e Daniel brigavam no carro. Eles não eram recém casados. Ao contrário, estavam juntos há cerca de quinze anos. Não tinham filhos. Ela e o marido, ao casar, decidiram que seria melhor ter bastante tempo para diversão. Agora, Elza queria ter um filho. Estava perto dos quarenta. Esse era o motivo da discussão. Daniel era totalmente contra a idéia. Ele ligou pela quinta vez o rádio do carro e ela pela quinta vez desligou, porque queria continuar na mesma tecla: ter um bebê.
Daniel acelerou um pouco mais para ultrapassar uma camioneta carregada de engradados que ia ziguezagueando pela avenida. Ele estava louco para fumar, tateava os bolsos, enquanto Elza ficava repetindo o discurso em defesa da necessidade e importância de um filho para eles.
Um pássaro enorme surgiu do nada e se estatelou no pára-brisa. Ato reflexo, Daniel puxou o volante para a esquerda, tentando desviar. O carro rodopiou uma vez no ar antes de cair pela encosta. O impacto com o chão fez os dois saltarem como bonecos de mola, batendo com as cabeças no teto e nas laterais do carro. Barulho de ossos e metal se partindo.

Sexta-Feira – 4h30

Para Alves, jornalista antigo do Correio da Manhã, passar uma noite inteira rondando hospitais e delegacias era a rotina do seu ganha-pão. Aquela quinta-feira estava bem movimentada: algumas prisões por perturbação da ordem; uma prisão por porte de entorpecentes; seis prostitutas velhas presas por lesão corporal em duas mais novas por causa do ponto; dois ferimentos a faca sem gravidade; uma batida de carro contra uma carrocinha de cachorro quente envolvendo cinco adolescentes e um adulto sem maiores complicações; quatro vítimas fatais de acidentes diversos, dentre estes um jovem de dezoito anos que aparentemente perdeu o controle de sua bicicleta - não havia evidência que ele estivesse drogado, mas testemunhas afirmaram que o rapaz parecia bêbado.
Alves coçou a careca, puxou os óculos para cima e pegou o prontuário. Olhou a cabeça do rapaz, toda amassada. Coitado! Tão Jovem! Pensou ele. Não havia mais nada a fazer. Seria o mesmo de sempre, em algumas horas pai e mãe chorando, família reunida, aguardando a liberação do corpo para o velório. O velho jornalista observou que a pele da coxa direita do rapaz tinha uma equimose enorme. A mancha formava uma espécie de desenho, um perfil grotesco. O jornalista a examinou detidamente, chegou mesmo a tocá-la. Os pelos de sua nuca se arrepiaram, quando sentiu, ao tocar a pele do rapaz com as pontas do dedo, algo parecido como um choque fraco, de baixa amperagem. O jornalista era um cético. Sempre muito prático e enrolado com os problemas básicos da vida não acreditava em nada fora do comum. Sua religião era o seu trabalho. Mas ali ele se deparou com uma coisa realmente estranha, inexplicável. Como o rapaz adquirira aquela equimose?
Alves sentiu que alguém o observava. Ergueu a cabeça para ver o médico legista sorrindo bem à sua frente.
_ Quer me matar de susto, doutor?
Ernesto, o médico legista, apenas sorriu. Eles se conheciam há muitos anos. Tinham, um com o outro, bastante intimidade e respeito.
_ Você está se perguntando como essa equimose foi parar aí, se o rapaz guiava uma bicicleta e o impacto que ocasionou sua morte foi na cabeça, não é?
_ É, sim. Pensei nisso.
_ Pois bem, disse o médico. Quero que você veja isso. Ele apontou a um corpo coberto por um pedaço de plástico azul, restos de uma toalha de mesa, que estava numa maca do outro lado da sala. Era o corpo de uma jovem e, pelo aspecto, a cabeça também estava destroçada.
_ É a vítima do atropelamento?
O médico fez que sim. Empurrou o cadáver, virando-o de lado. Nas costas da jovem uma enorme equimose espalhava-se da altura do pescoço até os quadris. Alves olhava assombrado. Era o mesmo perfil grotesco que tinha visto na coxa do rapaz, só que em tamanho maior.
_ Mas, o quê?...
_Calma, disse o legista, ainda tem mais. Puxou Alves pelo braço até as gavetas, abriu duas de uma só vez, força de longos anos de hábito. Estendidos em cada uma delas estavam os corpos de um homem e uma mulher. Em ambos, a mancha aparecia na região torácica como uma marca registrada. Não havia dúvida, era o mesmo perfil.
Alves ficou atônito por apenas alguns segundos. O tempo e a experiência profissional levaram vantagem. Puxou a máquina digital de dentro do bolso da calça e começou a bater fotos. Fez o mesmo com os outros cadáveres. Ali ele tinha uma matéria de arrepiar, já estava bolando a manchete, algo bem assustador que lhe daria, por alguns dias, momentos de glória.
Ernesto esperou o amigo terminar seu trabalho.
_ Alves?
_ Puxa, Ernesto isso é bem esquisito mesmo. Obrigado, cara.
_ Alves, você acredita em outra coisa que não seja esse seu trabalho?
_ Do que você está falando, Ernesto? Ei, cara, você parece assustado. É só uma mancha que se repete, deve ter uma explicação lógica para isso. Você é médico, rapaz. Diz aí. O médico balançou a cabeça negativamente.
_ Alves, são quatro corpos, todos com a mesma equimose em diferentes regiões do corpo, num mesmo formato, todos tiveram as cabeças esfrangalhadas e os acidentes fatais ocorreram em locais diversos... Não tem explicação lógica para isso. Sou médico há trinta cinco anos, percebo uma conexão quando existe uma, mas como isso? Não consigo definir, nunca vi nada similar.
_ Vá lá, Ernesto para com isso. Você não está me dizendo que temos aqui um tipo de arquivo X, não é? Você sabe que não acredito em assombração, essas coisas.
_ Alves, pega leve com o que você vai publicar. Vou examinar melhor essa mancha e ver o que pode ser, está bem? Dou uma ligada para você amanhã.
_ Ernesto, meu amigo, faça o seu trabalho que eu faço o meu, não fique se preocupando à toa. Há quanto tempo trabalhamos juntos?
O médico não respondeu. Refletia. Alves pegou um táxi para casa. Não era longe, mas ele estava com pressa, precisava passar as fotos para o computador e digitar a matéria.

Ernesto colocou as luvas, pegou o bisturi, iria retirar algumas amostras de pele daqueles corpos para o laboratório, antes de autopsiá-los. Quando terminou de acondicionar as amostras, ouviu um barulho no corredor. Não se incomodou. Pôs os rótulos nos frascos das amostras, preencheu alguns formulários. Começou a organizar sua mesa quando ouviu um suave deslizar por trás de si. Virou-se e deu com um homem alto, musculoso, impecavelmente vestido, que disse:
_ O senhor tem fé, doutor?
_ Quem é o senhor? O que o senhor está fazendo aqui?
_ Não sou ninguém importante, mas o doutor não me respondeu.
_ É melhor o senhor vir comigo, estou encerrando meu expediente.
Ernesto segurava o bisturi, embora não se lembrasse de tê-lo apanhado. O homem encarou o médico longamente. A mão que segurava o bisturi ergueu-se devagar. Ernesto não entendia, simplesmente não conseguia controlar a própria mão. Ele olhou apavorado para o homem, não conseguia falar, nem correr, pois seus instintos diziam que deveria sair dali antes que alguma coisa muito ruim acontecesse. Tentou segurar sua mão direita com a esquerda. Nada. A mão com o bisturi aproximou-se lentamente do pescoço. O bisturi descreveu uma curva no ar, cortando perfeitamente sua carótida.
O homem afastou-se do borrifo de sangue que jorrou do pescoço do legista, contornou a mesa, ergueu o monitor do computador e o derrubou sobre a cabeça do médico que estalou. Depois, pegou as amostras de pele e os formulários. Enquanto o corpo de Ernesto estendido no chão se cobria de sangue, o homem saiu calmamente do local sem ser visto.

Sexta-Feira – 8h

Alves estava na redação com a matéria e as fotos ainda na gaveta. Apesar de ter sido ríspido com Ernesto, ele resolveu esperar a ligação do amigo antes de mandar a matéria para a diagramação. Estava inquieto. Nunca fora dado a achaques, mas em seu íntimo algo o alertava. Essa sensação ruim o acompanhou da saída do hospital até agora. Irritado consigo mesmo, resolveu tomar café.
Aguardou até as dez horas. Decidiu telefonar para o médico. Ficou chocado ao saber do suicídio. Ernesto não tinha perfil de suicida. Era impensável. Alves abriu a gaveta, olhou para as fotos, para a matéria, isso teria que esperar, ele precisava entender o que havia acontecido com seu amigo. Precisava ir ao hospital.
A polícia estava no local. Pela primeira vez na vida, Alves sentiu dificuldade para entrar num local de crime, talvez porque a vítima fosse um grande amigo ou porque ele já estivesse ficando velho para esse serviço nojento. Atravessou o portão que dava para a sala de autópsias. O cheiro acre de formol empestava o ambiente. Alves se dirigiu ao policial civil que examinava o corpo no chão. Ele conhecia o Gerson, um bom investigador, das antigas.
_ Oi, Alves? Pensei que você não fosse aparecer.
_ Pensei mesmo em não vir, Gerson. Não estou acreditando, não dá para acreditar que o Ernesto tenha feito isso.
_ É, também estou chocado, mas não há dúvida. Ele se suicidou. Nada indica que houve assalto ou arrombamento. Só o Ernesto, o bisturi em sua mão e o monitor que ele deve ter derrubado por cima de si mesmo, ao cair.
_ Posso dar uma olhada?
_ Fique à vontade, não tem nada para ver.
O jornalista atravessou a sala até o cadáver do rapaz que continuava na maca. Alves olhou para a mancha. Era imaginação ou aquele troço tinha diminuído? O jornalista aproximou-se mais do corpo. Reparou que faltava um pedaço de pele da coxa. Uma amostra? Examinou as costas da moça, também faltava um pedaço de pele. Abriu as gavetas, também daqueles corpos tinham sido tiradas amostras de pele. Por que um legista iria se suicidar depois de retirar amostras de pele para análise? Que comportamento mórbido! Voltou para perto do investigador.
_ Gerson, ontem o Ernesto tirou amostras de pele daquele cadáver, falou apontando para o rapaz. Mas, não estou vendo a amostra por aqui. O Ernesto sempre foi super meticuloso. Ele sempre colocava a amostra sobre a mesa junto com os formulários de autorização.
_ Alves, nosso amigo morreu e você está preocupado com amostras? Porra, cara. Vai se danar!
_ Você não está entendendo, Gerson? Você disse: não tem nada para ver, o lugar está limpo, não há dúvidas sobre o suicídio. Então por que não encontro a porra da amostra que deveria estar aqui em cima da mesa dele?
_ Sei lá, vai ver que o pessoal do laboratório que esteve aqui antes de nós pegou o material. O que tem isso a ver com a morte do Ernesto? Não enche o meu saco!
Alves cismava. Tinha que ter quatro frascos com amostras de pele sobre a mesa de Ernesto, mais a papelada. Ele sabia disso, como sabia também que um médico que fica até mais tarde fazendo seu trabalho não se suicida.
Saiu da sala de autópsias direto para o laboratório. Se aquelas amostras não estivessem lá, ele iria começar a ficar muito, mas muito irado.

Sexta – Feira – 13h:30

O telefone tocou outra vez, era o quarto e último toque. O homem pegou o fone, ouviu atentamente. Quando a ligação terminou, o homem se levantou foi até a geladeira, retirou do congelador os frascos com as amostras de pele e colocou-as num saco de lixo preto que retirou do pequeno armário sob a pia. O saco bem fechado foi parar na lixeira do prédio no final do corredor junto com os formulários assinados por Ernesto. O homem voltou para o apartamento, sentou no sofá. Tirou do bolso da camisa um pequeno objeto metálico em forma de triângulo agudo. O objeto deslizou sozinho de sua mão para a mesa, pairou no ar alguns segundos antes de aterrissar no vidro. A ponta mais fina do triângulo girou em sua direção. O homem sorriu aliviado, pegou o objeto e o guardou. Em passos lentos saiu do apartamento, seguindo uma direção conhecida.

Apesar da insistência e da persistência Alves não encontrou nenhuma amostra no laboratório e ninguém sabia dessas amostras. A coisa começava a ficar realmente complicada. Por que alguém mataria um legista e roubaria amostras se os corpos que eram a maior prova continuavam no hospital? Confuso, tudo muito confuso. Ele se lembrou das fotos e da matéria deixadas na gaveta de sua mesa na redação do jornal. Resolveu não perder mais tempo. Ia publicar a matéria, com ou sem mais fatos. Saiu do laboratório com essa certeza, dirigindo-se ao jornal.
O guarda que vigiava os corredores da redação do Correio da Manhã teve sua atenção despertada para o homem alto e musculoso que parecia perdido. Aproximou-se dele, pelo visto era gente importante.
O homem disse alguma coisa em voz baixa para o guarda que acenou com a cabeça. Levou o visitante até a redação e apontou à mesa do jornalista. O homem abriu a gaveta, retirou o que queria e saiu. O guarda nem reparou no que o homem fazia, também não se importou quando ele saiu da redação com o envelope debaixo do braço. O guarda, posteriormente, não soube explicar para Alves como sua matéria e as fotos haviam sumido da gaveta.

Sexta-Feira – 14h

Um homem impecavelmente vestido saiu do hospital.

Sexta-Feira – 15h30min

O que estava havendo? Alves tinha a sensação de que uma coisa perigosa, criminosa e sorrateira andava em seu encalço. Sua matéria sumira, engolida pelo nada. O guarda não sabia responder às suas perguntas. Alves tinha muita experiência para perceber quando alguém mentia e ele sabia que o guarda dizia a verdade. Pegou um táxi, ainda tinha o mesmo material no seu computador. Enquanto o motorista do táxi tentava cortar caminho para chegar mais rápido ao destino, o coração do jornalista batia descompassado, numa premonição de que iria ter várias surpresas desagradáveis. Nunca fora homem de premonições, sempre era frio, lógico e sensato. Mas, seu mundo de certezas e estabilidade estava sendo destroçado por uma força invisível rápida e espertamente.
Ao chegar ao apartamento a premonição se confirmou. Seu computador estava vazio, bem como a máquina digital que tinha ficado na estante da sala. Alguém limpara a memória de ambos, nem sombra de matéria, de fotos, de nada. Alves, completamente perdido, sentiu o mundo rodar, faltou-lhe o ar, sentou-se na beira da cama para não cair. Ernesto não tinha se suicidado, aquelas pessoas no Hospital não tinham morrido acidentalmente, todos tinham sido assassinados e pelo visto ele poderia ser o próximo da lista. Por quê? Contudo, ainda havia os corpos. Ele precisava informar ao Gerson toda a trama, mostrar os corpos, as malditas manchas. Gerson iria acreditar?
Alves pensou em simplesmente se deixar ficar ali, esquecer tudo. Quem iria saber, caso ele resolvesse não continuar a investigação? Além dele, somente o assassino, ou assassinos. O jornalista tremia de medo e indignação. O que estava acontecendo ao mundo, às pessoas? Com qual trama eles haviam indevidamente topado?
Alves colocou novamente a câmera digital no bolso e saiu para a rua. Voltaria ao hospital, iria tirar novas fotos. Ainda não estava vencido, ainda podia provar para Gerson suas conclusões.

Sexta-Feira – 16h:10

A caminhada até o hospital deixou Alves mais tranqüilo. Ele conseguiu ao longo do percurso organizar as idéias. Pensou que estava mesmo ficando velho e que tinha tido um surto de paranóia. As coisas podiam não ser como ele havia imaginado.
No hospital tudo parecia como antes. A polícia já tinha ido embora, os enfermeiros andavam apressados pelos corredores. Os alto-falantes anunciavam aos médicos as próximas cirurgias. Normalidade, que coisa boa! Pensou Alves. Foi direto para a sala de autópsias. Tudo igual como tinha deixado algumas horas antes? Nem tudo. Os quatro corpos não estavam ali. Mais uma vez o chão desapareceu de sob seus pés. Alves procurou, abriu as gavetas refrigeradas. Onde estavam os corpos? Um funcionário apareceu surpreendendo o jornalista na sua busca inútil.
_ Sou o Alves.
_ Eu sei, conheço o senhor. Era amigo do doutor Ernesto, não é?
_ Como é seu nome?
_ Carlos.
_ Você pode-me dizer onde foram parar os corpos que estavam aqui para serem autopsiados?
_ Aqueles quatro?
_ Sim. Aqueles quatro. Alves estava nervoso, suava.
_ Sr. Alves, se não me engano os corpos foram liberados para as famílias por volta das 14h. A autópsia foi feita pelos estagiários. Foi tudo muito rápido, porque o hospital estava sendo negligente, entende? Foi o que eu ouvi por aí. Disse o rapaz dando um risinho ligeiro.
O jornalista balançou a cabeça afirmativamente. Fez que ia sair, mas de repente voltou-se e perguntou ao funcionário.
_ Carlos, você poderia me fazer um favorzão? Pode ter certeza que eu vou recompensá-lo.
_ Do que se trata, sr. Alves?
_ Preciso do endereço da funerária para onde foram os corpos, disse puxando da carteira algumas notas de cinqüenta.
O funcionário olhou cinicamente para as notas e respondeu:
_ Dá aí duas dessas que eu digo agora!
As cédulas mudaram de mão e o esperto funcionário respondeu depressa.
_ Foram para o Crematório, em São Joaquim.
_ Crematório?
_ Pois não é, que coisa interessante. Todas as famílias aqui exigindo os corpos para o crematório. Onde já se viu isso? Parecia um bando de loucos. O diretor do hospital ficou em palpos de aranha. O investigador Gerson pode confirmar. Ele ainda estava aqui quando a confusão aconteceu. Foi ele mesmo quem conversou com o diretor e os dois deram o jeito deles. Eu, heim? Os mortos não tiveram sequer velório. Os quatro agora já devem estar virando cinza. Com umas famílias dessas para que inimigo, né? Carlos piscou o olho para Alves e saiu da sala, colocando as notas de cinqüenta no cós das calças.
Alves, perplexo, deixou os braços caírem ao longo do corpo. E agora?
Lá fora a chuva fina voltou a cair.

Sexta – Feira – 18h

Por mais de uma hora Alves caminhou sem rumo pelas ruas. Não tinha vontade de retornar ao jornal, nem se sentia seguro no apartamento. Não tinha mais em que apoiar suas suspeitas, ou seriam certezas? As provas eliminadas. Os cadáveres cremados. A sensação de impotência crescia no peito do velho jornalista. Seu melhor amigo assassinado e ele nem sabia o motivo. Não sabia de coisa alguma. Se duvidasse, seria considerado gagá por quem quer que fosse, caso ele viesse a abrir o bico.
Alves entrou num boteco. Estava em algum lugar perto da Rua Vitória, a rua das prostitutas e dos viciados. Mesas vazias, lixo por toda a parte, o local fedia a fruta podre e bebida destilada. O dono por trás do balcão limpava os dentes com um palito de fósforo. Alves desabou numa das cadeiras de plástico azul com logotipo de cerveja, pediu uma dose dupla de conhaque. Se ainda tinha livre-arbítrio lhe restava uma opção: a de se embriagar. Era o que ele ia fazer.
O dono do boteco trouxe o conhaque num copo descartável. Alves engrossou, queria um copo de vidro. O proprietário deu uma cuspida no chão, uma encarada no cliente chato, velho corno provavelmente, foi trocar o copo.
Quando Alves tomou o primeiro gole quase sufocou. Troço forte da porra. Enfiou a mão no bolso e pegou seu primeiro cigarro e o celular. Digitou o número de Gerson e aguardou.
A noite e a chuva seguiam juntas.

O homem alto impecavelmente vestido atravessou a rua em direção ao boteco. Entrou. Alves continuava sentado à mesa tomando seu conhaque distraído, enquanto mexia no aparelho celular. O homem não pediu licença. Sentou-se na cadeira em frente ao jornalista que ensaiou um chega para lá. O homem disse para ele ficar calmo e ouvir. Um súbito e irresistível desejo de ouvir o que o homem tinha para lhe dizer apossou-se de Alves que apenas relaxou, deixando as mãos cair molemente sobre as pernas.
_ O que vou contar para você é uma fábula, uma história fantasiosa ou uma verdade, fica ao seu critério. Meu nome não lhe interessa como não vai lhe interessar saber o que eu faço ou de onde eu vim. Apenas escute. Vamos supor que alguns poucos representantes de uma raça vinda de outro local, de um local muito distante, tenham chegado aqui. Vamos supor que eles tenham gostado daqui, planejaram viver e morrer aqui. Suponha que muitos e muitos anos se passaram, que esses “representantes” tornaram-se mais fortes, mais unidos, mas devido a um detalhe conjuntural não puderam reproduzir-se. Suponha que essas criaturas diferentes da população nativa tenham certos poderes como teletransportar-se, influenciar pessoas comuns e mudar dum corpo para outro. Criaturas difíceis de morrer, únicos. O que você acha?
_ Acho que estou ficando de pileque para agüentar essa sua história. Até porque não gosto de ficção científica. Ultimamente nem de não-ficção. Alves pediu mais uma dose e o homem, imperturbável, prosseguiu.
_ Suponha que essas criaturas tenham vindo aqui como batedores de outros que viriam depois para refazer esse mundo. Mas eles se rebelaram contra as ordens recebidas. Viram a possibilidade de permanecer em paz. Encenaram a própria morte para que os outros não viessem, pois só assim os demais acreditariam que os nativos possuíam uma tecnologia muito superior para localizá-los e destruí-los. Cada um dos que ficou construiu sua própria história.
Alves encarou o homem. Ele era simpático, mas completamente pinéu. Mesmo assim não conseguia se livrar do tipo. Voltou a recostar-se na cadeira. Queria ficar sozinho e curtir sua impotência, sua dor.
_ Vá embora e me deixe em paz. Não quero saber dessa sua história. Quero ficar só.
O homem pareceu ofender-se, colocou os cotovelos sobre a mesa e apoiou o queixo nas mãos.
_ O senhor vai ouvir minha história até o fim, sr. Alves.
Alves assustou-se. Não haviam se apresentado e ele estava certo de não conhecer o indesejado companheiro de mesa. Como aquele homem sabia seu nome?
_ De onde você me conhece?
_ Nossas histórias cruzaram-se ontem. Sei que o senhor é jornalista e que está investigando a morte de um grande amigo.
As mãos de Alves crisparam-se sobre as pernas. O pânico o assaltou. Só quem poderia saber disso era o assassino. Mesmo com medo lançou um olhar de ódio para o homem. Tentou levantar, mas não conseguiu. As pernas não o obedeciam.
O homem não deu importância alguma a ele. Apenas continuou.
_ Sr. Alves, escute bem. O senhor não vai sair dessa cadeira até eu terminar o que tenho para dizer. Durante centena de anos os batedores viveram tranqüilos aqui. Porém a serenidade acabou há apenas alguns dias quando eles souberam que outros batedores haviam sido enviados.
_ Que diabos você está falando? Porque você não me mata logo e põe um fim a tudo isso. Eu não estou acreditando em nada do que você dizendo.
_ Sr. Alves, eu não vim aqui para matá-lo, mas para lhe dar uma explicação, que acho que o senhor merece. Eu tive que matar, sim, o seu amigo, porque ele já não era mais o seu amigo. Era uma das criaturas de que lhe falei. E sim, eu também sou um deles. Sou um dos antigos. O senhor não acredita? Talvez acredite quando eu disser que o senhor vai levantar dessa cadeira, porém permanecerá sem o movimento dos braços.
Ato contínuo o corpo de Alves saltou como um autômato, ficando de pé. Não conseguia controlar seus próprios músculos, deu alguns passos trôpegos e voltou a sentar-se. Sua cabeça doía, sentia-se impotente. Quem era aquele homem? Seria mesmo o que dizia ser? Sua mente se recusava a admitir. Ele não acreditava em assombração, vampiros, homenzinhos verdes. O esforço que fazia para se libertar daquele controle era enorme. O suor escorria pelo rosto, pelo pescoço, encharcando a camisa.
O homem pareceu relaxar. Continuou.
_ Temos a capacidade de saltar de um corpo para outro. Quando fazemos isso precisamos de algum tempo até termos controle sobre o corpo ocupado. Nossa morte completa se dá quando o cérebro do corpo que ocupamos é destruído. Aquelas quatro pessoas não sabiam que, em breve, seriam apenas invólucros. Enfiou a mão no bolso e puxou um triângulo fino de metal que colocou sobre a mesa. O objeto brilhava sobre o plástico. Ele disse:
_ Esse aparelho detecta a nossa presença. Foi assim que descobri onde os outros estavam e quais corpos ocupavam. Por isso os matei.
O triângulo ergueu-se sozinho, flutuou por alguns segundos e voltou a aterrissar na mesa. Devagar girou uma das pontas na direção do homem impecavelmente vestido e parou.
_ O senhor viu como ele funciona?
_ Sim. Vi esse negócio rodopiar, flutuar sozinho. Não me diz nada. Estou ouvindo sua conversa há mais de quinze minutos. Mesmo que eu acreditasse em tudo que você está me dizendo, o que não é o caso, como explica a morte de Ernesto e aquelas manchas idênticas?
_ As manchas aparecem porque eu forço determinados músculos a pararem de funcionar. Ao fazer isso obstruo também os capilares ocasionando uma hemorragia. A equimose, na verdade, é uma resultante de força, como uma impressão digital da minha energia psíquica. Quanto ao médico, ele já não era mais o seu amigo Ernesto. Já tinha sido “ocupado”.
_ Quer dizer que um de vocês o havia “ocupado”?
_ Sim. Podemos ocupar suas mentes indefinidamente. Vocês nem se dão conta de nossa existência. Quando vocês morrem, nós simplesmente trocamos de corpo, ocupamos outro. Por isso eu tive que matá-lo, antes que ele me matasse.
_ Mas como ele pode ter sido “ocupado”, se você já havia matado a todos?
_ Realmente eu não sei o que aconteceu. Ainda não pensei sobre isso. Talvez um dos batedores seja diferente, seja mais rápido. Antes que o corpo ocupado por ele morresse, pode ter saltado para outro e depois para outro até encontrar um corpo que lhe agradasse, como o do seu amigo. Eu não pude evitar. Lamento profundamente o ocorrido.
_ Por que você está me contando tudo isso?
_ Porque sou um alienígena. Porque queria sentir o que alguém da sua espécie sentiria ao saber da nossa existência. Porque gosto deste planeta e aprendi a gostar da espécie humana. Por mera vaidade. Porque sou uma criatura de fé... Eu sinceramente, não sei.
_ Mas por que eu? Por que você não vai à televisão e se expõe, seu filho de uma mãe covarde?
_ O senhor está sendo deselegante comigo, uma reação previsível normal para as criaturas da sua espécie. Por que o escolhi? O senhor é um homem prático, sólido e vai morrer em breve. Calma, não serei o culpado. O senhor tem um câncer que vai inevitavelmente matá-lo. Além disso o senhor está velho, desacreditado. Meu segredo está seguro com o senhor. Adeus, senhor Alves, estou certo que não nos veremos mais.
O homem levantou-se, passou no balcão, cumprimentou o proprietário e retirou-se do boteco.
Dois minutos se passaram até Alves sair do torpor. A cabeça lhe pesava. Ele ainda não acreditava no que tinha ouvido. Foi até o balcão e pediu mais uma dose. Aproveitou para perguntar ao dono que direção o homem tinha tomado. O proprietário olhou para ele com um ar esquisito:
_ Não vi homem nenhum, o senhor fica bêbado fácil, é? Ou anda na pedra?
Alves lhe deu as costas. Será que estava enlouquecendo? Passou a mão no bolso da camisa. Onde estava seu celular? Olhou para a mesa. O celular estava onde o havia deixado, perto do cinzeiro. Foi buscá-lo, observou que estava ligado direto.
_ Alô?
_ Alves, é você? Que história mais maluca é essa, fiquei ouvindo na linha.
_ Você ouviu tudo, Gerson?
_ Ouvi. É uma pegadinha?
_ Não, Gerson.
_ Ah! Pára, deixa disso, só pode ser.
_ Você tem tempo para uma bebida?
_ Depois dessa ligação, meu companheiro, tenho todo o tempo do mundo.

O homem impecavelmente vestido raciocinava: e se tivesse cometido um erro ao matar o médico? Pegou o objeto metálico que subiu, pairou, desceu, girou, parou... e apontou para outra direção.