CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

COTIDIANO


Acordei.
Outro dia de luta. Tomar banho, vestir o uniforme da loja, fazer e tomar café, correr para enfrentar a fila do ônibus. Quem enfrenta uma fila de ônibus, enfrenta qualquer coisa. É um verdadeiro corredor polonês, onde todos estão expostos às cotoveladas, joelhadas, tapas e empurrões.
Tudo na vida tem razão de ser. A fila do ônibus é o gargalo que vai separar os três segmentos básicos de passageiros que são: os que vão sentados, os que vão em pé e os que vão imprensados. Em virtude de minha altura e peso reduzidos, geralmente faço parte do último segmento.
Hoje, por acaso consegui um bom lugar bem próximo à catraca, fiquei em pé. Mas, para pobre não há clemência. Lá estava eu bem segura, quando subiu no lotação uma mulher enorme, gorda. Ela empurrou a catraca como se fosse manteiga, me empurrou. Desviei-me como pude e estacionei no último estágio: imprensada.
Uma mocinha novinha, bem mais baixa do que eu, com jeito triste, instalou-se entre a gorda e eu. A cabeça da moça ficou a um palmo do meu nariz. Ela tinha um cabelo enorme, preto, liso e, à primeira lufada de vento vindo da janela, revelou estar cheio de lêndeas e piolhos absolutamente sarados, que passeavam satisfeitos. Tampei a respiração por alguns instantes. Só olhar para aquela cabeça fazia meu estômago revirar. Tentei movimentar o corpo, escapar ao enxame, mas a gorda obliterava qualquer esforço.
O ônibus parou novamente. Dessa feita subiu um homem alto, musculoso, só de camiseta. Chumaços de pelos negros, visivelmente suados infestavam aquelas axilas poderosas e o cheiro, de longe, já era forte. Ele olhou para mim. Congelei. Não podia ser, não havia mais espaço onde eu estava. O homem não deu a mínima para os meus pensamentos, nem para o meu desespero. Atravessou a catraca, atropelou a gorda e postou-se lado a lado comigo. Para completar ergueu os braços e segurou-se à trave lá em cima. A amônia tomou conta de tudo.
Estirei o olhar para a frente, com inveja, observei mãe e filho sentados, bem sentados em suas poltronas. A criança com o dedo aumentava um buraco no estofado do ônibus, a mãe fingia não ver. Noutra cadeira um adolescente atirava caroços de milho pela janela nos transeuntes com um estilingue improvisado. Dois senhores discutiam política internacional aos berros, suplantando o barulho alto do rádio e do motor do veículo.
O motorista freou o ônibus abruptamente, com os olhos acompanhou pelo retrovisor o susto dos passageiros, os gritos. Sorriu e fez novamente e mais uma vez. Era puro sadismo.
Eu pensei, com todas as forças, numa prece aos santos de todas as religiões: "Se eu sair viva e sem piolhos daqui, comprarei um carro". O motorista voltou a brincar de "corre e breca", com requinte dava pequenos toques no freio para nos sacudir bem. No auge da minha aflição comecei a rir também. A gente se acostuma com a miséria bem rápido.
Um dos senhores que discutia política arrematou a situação, quando virou-se para o interlocutor e asseverou: _ Ainda bem que aqui não existe terrorista!

ANJO

Ser, pulverize silenciosamente
doces sonhos sobre os olhos do adormecido.
Acalente suas esperanças
no útero da noite.
Eleve-o sobre castelos de ouro
com torres de madrepérola
e rios de água-marinha.
Esconde dele os navios-fantasmas
e os profundos abismos.
Dê-lhe a pureza do infinito, o silêncio.

Deixe-o feliz, tranquilo.
Toque-o, ser, suavemente,
com seus dedos de pétalas.
Em sua boca, põe apenas riso.
Protegei-o sempre, por toda a vida.
Mas, oculte-se ao amanhecer,
quando este vier pousar
em seus olhos finíssimos raios de sol,
filigranas de ouro que o despertarão.

Para Alexey Lourenço Mario, 12/08/1978 - 14/01/2006

AMIGAS?


A Secretária-chefe irritava-se com a visão desorganizada de sua secretaria já àquela hora da manhã. Havia papéis espalhados sobre a mesa, copinhos de café empilhados ao lado do computador. A aparência agradável da atendente e sua indubitável inteligência não melhoravam a situação. Para a Secretária desleixo era desleixo. Ela sentia-se invadida pela jovem ajudante. Sentia que o seu setor estava sendo invadido por um alienígena perigoso e que com o passar do tempo esse invasor poderia até tomar o seu lugar. Baixou a pequena porta de madeira que completava o balcão, entrando do recinto. Procurou manter uma fisionomia firme e agradável. Sorriu para a atendente com candura, embora sua mente protestasse firmemente contra essa atitude.
Sentou à mesa, pegou o Livro de Ponto e começou a marcar a falta dos outros empregados. À socapa não tirava os olhos da mocinha, observava cada gesto, cada palavra, pois havia lido em algum lugar que era importante conhecer bem o inimigo.
A atendente estava agora de pé, em frente ao balcão conversando com um cliente, parecia indiferente às maquinações de sua chefe. O cliente foi embora e a moça retornou ao computador para terminar a tarefa anterior temporariamente suspensa. A secretária aproveitou para entabular conversa, extrair informações preciosas, úteis que no futuro...quem sabe?
A atendente não gostava do timbre de voz da chefe, muito menos da maneira como ela a seguia com os olhos, sempre analisando, sempre se imiscuindo, registrando tudo até o mínimo erro. Mas estava disposta a angariar-lhe a amizade, nem que para isso tivesse que lhe puxar o saco, precisava do emprego e daquele salário, estava fazendo um curso de Secretariado noturno, numa esperança de melhora.
_ Você observou a simpatia daquele homem? Perguntou a secretária para a sua ajudante.
_ Sim. Ele não tirava os olhos de você! Respondeu a mocinha, sorrindo matreira.
_ De mim? Imagina! Quem vai olhar para uma quarentona como eu?
_ Pode até ser quarentona, mas está bem apanhada. A mocinha retrucou diplomaticamente.
As duas se entreolharam, caíram na gargalhada e continuaram seus afazeres. Em silêncio, ambas, no íntimo, concordavam com uma única coisa: iriam se odiar até a morte!