CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Hipotrofia Emocional


Somos seres emocionais, regidos por toda sorte de sentimentos que podem variar da paz beatífica à crueldade mais torpe. Esses sentimentos, sejam puros ou vis, estão dentro de cada um de nós. Contudo, por conveniência, para que possamos permanecer em grupo, criamos regras de constrangimento emocional para a conformação da conduta individual imprópria em conduta grupal própria. Assim temos, ao início dos primeiros agrupamentos humanos, o homem estabelecendo relações de poder e domínio entre seus pares, criando divisões sociais, a partir de critérios ou conceitos norteadores como riqueza, status, religião, cor etc. Nascem, assim, a cultura e as tradições, em que se firmam os conceitos conformativos pré-estabelecidos e as formas de poder.
Do constrangimento emocional coletivo surgem todas as crises, todos os conflitos, frustrações e inadequações individuais. Se, por um lado, somos essencialmente emocionais, por outro, construímos uma racionalidade individual regulada por uma razão maior - a razão do grupo. A mesma diversidade conceitual que faz cada um de nós ter sua própria crença, sua própria verdade, sua própria justiça e nos engrandecer como seres humanos, apropriada pela razão social, nos apequena e nos faz servos de tudo que criamos.
Como num volver em si mesmo, as emoções grupais fortalecem as formas de dominação de um grupo sobre outro. Os conceitos norteadores originais convertem-se em intensos movimentos sociais tradicionalistas ou fundamentalistas emocionalmente exacerbados. Os conflitos surgem, avolumam-se e culminam com o desaparecimento de um ou outro grupo. Esse ciclo tanto pode determinar o nascimento e a morte de grupos sociais intrínsecos a uma civilização, quanto o nascimento e a morte de um grupo social extrínseco, considerando-se, como tal, a própria civilização.
Subjaz, então, uma questão específicamente relacionada à psiqué humana: a hipotrofia emocional. Se considerássemos a nossa emocionalidade, em analogia à escala evolutiva, ela estaria, guardando os devidos méritos, como um Neandertal. Todavia, não se trata aqui de reformular um paradigma de controle, mas, sim, de buscar uma maneira eficaz de desenvolvimento emocional humano. Esse é o ponto crucial de necessário enfoque.