CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

domingo, 29 de agosto de 2010

A Vizinha

Da porta entreaberta do apartamento saía para o corredor um delicioso cheiro de alho refogado, barulhos de panela, talheres e pratos sendo movidos, um trautear, provavelmente da cozinheira. A vendedora de cosméticos parou no fim do corredor perto da escada - o prédio não tinha elevador - aspirou profundamente aquele aroma que fez o seu intestino revirar e provocou uma dor aguda nos maxilares. Era fome. Ela volveu devagar. Talvez os donos do apartamento fossem boa gente, talvez ela conseguisse "filar" um almoço. Talvez ela conseguisse vender algum produto.
A vendedora bateu na porta colocando metade do corpo para dentro do apartamento, uma técnica quase infalível que impedia os moradores de escaparem de sua visita.
_Ô de casa! Um silêncio agourento seguiu-se. Do fundo do apartamento, surgiu uma senhora baixa, morena, com os cabelos escassos e desalinhados. Vestia um chambre velho e ensebado, sobre o ombro um pano de prato que um dia tinha sido branco e limpo. A mulher tinha o olhar meio deslocado e arrastava os pés enfiados numas pantufas cinzas. Aproximou-se.
A moça sorriu, acenou. Pareceu-lhe ter sorrido e acenado para o nada. Nenhuma empatia. O rosto da mulher era completamente apático. Ela demorou alguns segundos para decidir entrar e fazer sua apresentação, mas acabou tomando coragem. Sentou no sofá esparramado como um doente num canto da sala, sobre a claudicante mesa de centro despejou seus produtos, cremes, lavandas, batons, esmaltes, brilhos, máscaras. Ela ia falando e mostrando cada um de seus badulaques para a mulher que impassível ouvia de pé. De repente a velha senhora falou, sua voz era grossa, profunda e metálica, como se há muito não a usasse. Pediu a moça para esperar um pouco que iria até a cozinha.
A vendedora esperou, enquanto uma voz interior lhe sussurrava que mais uma vez batera em porta errada. Recolheu seus produtos. A fome toldava-lhe os olhos, os pensamentos. Suas costas e seus pés doíam. Saiu deixando a porta ainda aberta.
Na cozinha, a mulher raciocinava...sabia que sua mente andava fraca e que, às vezes, o passado e o presente pareciam fundir-se. Sentiu-se um pouco tonta, apoiou-se no fogão enferrujado.
Pegou os camarões da bacia jogando-os na frigideira, acendeu novamente o fogo. Seus movimentos eram mecânicos mais importavam suas lembranças. Uma dor perpassou por seu peito...ela lembrou-se deles, parecia que ainda estavam ali chamando-a vizinha, vizinha, vizinha. Ela os via correndo em torno dela, trouxeram uma lingerie e tequila para comemorar... o aniversário de um deles? Ela não conseguia lembrar... por uma noite ela foi a mulher mais amada e cobiçada de todo aquele prédio. Ela nunca mais os viu...várias vezes foi até a porta deles, tocou a campainha, ouvia seus risos silenciando e ninguém vinha atender. Por quê? Ela lembrou das fotos expostas no flanelógrafo do prédio, ela nua, bêbeda, sensual. Novamente a dor no peito.
Ela lembrou o enorme bolo de aniversário que eles receberam via delivery...depois ela lembrou que a polícia arrombou a porta do apartamento deles e os encontrou mortos, uma morte cruel por ingestão maciça de estricnina.
Ela foi interrogada...mas desistiram logo dela, foi considerada inofensiva. Os camarões estavam prontos. Ela abaixou e pegou no armário da pia o frasco de estricnina, pulverizou os camarões. Numa bandeja os camarões e um copo de suco de tangerina, ela se lembrou da moça que a aguardava na sala, aquela mocinha parecia faminta. Tão bonitinha, tão jovem, o que ela queria mesmo? Já nem lembrava. Por que aquela moça invadiu sua casa e trouxe de volta seu passado?
A mulher chegou com a comida na sala que estava vazia. Ela sentou no sofá e colocou a bandeja sobre a mesa, percebeu um objeto caído no chão, com dificuldade pegou o tubo de batom. Era brilhante, cor de rosa, perfumado. Teve ânsia de comê-lo, mas colocou-o sobre a mesa perto da bandeja. Ainda chegou a esticar a mão para pegá-lo... mas parou no meio do caminho pousando sobre os camarões...

O Águia


O velho sentou-se na poltrona de couro na varanda de sua casa de praia. Podia ouvir as filhas rindo na cozinha, a discussão dos seus genros no bar e um dos netos brincando com os filhos na piscina.
A cabeça branca, os olhos azuis profundos coroados por duas sobrancelhas grossas, peludas, o nariz adunco sobre um queixo pronunciado davam-lhe um aspecto de águia. E foi assim que ficou conhecido no mundo em que vivia: "o águia". Era o quinto filho, o caçula do casal, o único que conseguiu prosperar- seus pais nunca tiveram uma filha. Ele era ágil com os números, rápido com as palavras e sensível às necessidades humanas. Para ele ter nada era a possibilidade de ter alguma coisa, tudo tinha um custo. Com essa perspectiva ou com essa filosofia de vida, ele mantinha, já aos nove anos uma pequena venda no fundo do quintal. Pedaços de bicicleta, aros, pneus, guidons, resto de carrinhos de brinquedo, rolimãs, tábuas de diversos tamanhos e larguras, tintas e pincéis. Ele os recolhia do lixo ou das calçadas e ruas onde eram jogados e os revendia para outros garotos. Tinha até caderno de fiado com os juros anotados ao pé da página. Os pais riam da versatilidade do filho e a família usufruía do pequeno comércio.
Com o passar dos anos ele amealhou quantia suficiente para iniciar uma pequena empresa - um mercado. Colocou o irmão mais velho para gerenciar o negócio, pois queria terminar a Faculdade de Administração, ao contrário dos irmãos ele continuou os estudos sem nunca repetir de ano. Formou-se com louvor, ganhando oportunamente uma bolsa para fazer a especialização. Foi o máximo! Ao terminar a especialização já era dono de uma rede - com seis super-mercados e quatro filiais fora do estado.
Com a trágica morte de seus pais e três de seus irmãos num acidente de carro ele pode, com o dinheiro do seguro, expandir seu negócio, diversificar. Montou com um antigo amigo da faculdade uma imobiliária. Em pouco tempo tornou-se também construtor, proprietário de mais de sessenta imóveis, vinte e cinco terrenos e boa parte de uma pequena vila de pescadores, que ele terminou por transformar em balneário de luxo com sólida infra-estrutura turística. Estava milionário.
Sua esposa uma sólida e dócil mulher lhe dera duas filhas saudáveis. Ele fez questão que elas fossem estudar na Europa, que se formassem. Seus maridos também foram escolhidos por ele. Aos setenta e oito anos ele ainda estava firme e forte como uma rocha. Alguém ligou o aparelho de som, a música o fez recordar sua mãe discutindo com o seu pai que talvez o "caçulinha precisasse de mais pulso pra segurar a ganância". Sua mãe não era alfabetizada, mas era intuitiva. Ele pensou, fechando os olhos e embriagando-se de lembranças. Como ela estava certa. Ele sempre foi ganancioso. Foi assim quando decidiu que os pais e os irmãos deveriam fazer um seguro de vida. Foi assim quando mandou o único irmão que lhe restou ir morar na França depois de ter-lhe descoberto a tendência sexual. Foi assim quando decidiu que os antigos moradores da vila de pescadores deveriam ser remanejados para outra área. Foi assim quando decidiu encerrar sem motivo ou aviso a sociedade com o velho amigo.
Ele abriu os olhos. Seu neto estava bem perto dele, segurava um copo com uísque e gelo que lhe ofereceu. Um jovem esperto, o candidato ideal para ser seu herdeiro nos negócios. Formado também em Administração, também possuidor de belos olhos azuis, muito bem casado já lhe dera dois bisnetos. Seu outro neto morava na Alemanha, era um ovelha-negra, seria deserdado em breve.
O velho bebericou o uísque que o neto lhe oferecia. Cinco minutos depois estava morto. No atestado de óbito, infarto agudo no miocárdio. O funeral foi concorrido e imponente. A grande águia partia em seu último vôo. Muitos fotógrafos e jornalistas estavam no cemitério acompanhando o enterro.
Passados alguns dias, silenciosa a família aguardou a leitura do testamento, não houve discussões, todos acataram as últimas e póstumas ordens do velho, onde seu neto preferido fora colocado como herdeiro universal.