CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lembranças do Brasil




Viajei pelo Brasil, conhecendo-o de ponta a ponta, entre 1981 e 1983.
Em Jequié, na Bahia, presenciei uma procissão de jegues. Os jegues carregavam o andor com a Nossa Senhora e também carregavam os romeiros. Os homens iam logo depois do altar, trajavam calça de pano escuro e camisas azuis de cetim, com chapéus de palha, quase brancos. As mulheres vinham atrás dos homens, bem assentadas, lateralmente, nos lombos dos animais . Usavam vestidos em cetim azul ou vermelho, as cores do manto da santa. Algumas delas usava um véu sobre a cabeça. As crianças bem arrumadinhas nas roupas domingueiras seguiam a pé de um lado e do outro dos jegues, junto às mães. Impressionei-me com o silêncio daquela procissão. Aqui e ali alguém gritava um amém ou prosseguia numa cantilena baixa, quase sussurrada, que os de fora não entendiam.
No Rio Grande do Norte, a rodovia, BR 101, era ladeada por uma mata fechada, mas que não se aproximava dela. Entre uma e outra havia um espaço aberto, coberto de areia branca e algum capim, depois vinha o acostamento. Num desses espaços eu parei para observar uma vila estranha. Ela era formada por seis ou sete casas de taipa que, literalmente, se seguravam umas às outras, pareciam pedras emborcadas de um dominó. Uma semi-vilazinha de pobreza e abandono. No final da rua/espaço aberto, havia uma placa, um outdoor, surpreendentemente novo, com os seguintes dizeres: "Mais uma obra do governo do Estado do Rio Grande do Norte". Fiquei algum tempo tentando localizar a obra, mas só consegui avistar as casas e a mata escura por trás. Saí dali sem conseguir desvendar o enigma.
Em Aracaju, tive uma surpresa, depois de passar por extensas plantações de cana-de-açúcar cheguei a um pequeno desvio na estrada, uma vicinal de barro e cana que me levou a uma ponte levadiça por cima de um córrego e findou numa fábrica de processamento de álcool. Parecia um castelo com uma cidade dentro, como os antigos feudos da Idade Média. No interior do canavial, circundado pelo córrego, tinham construído: a fábrica; uma farmácia que também servia como posto de saúde (ambos precários); uma pousada/alojamento para os trabalhadores e visitantes sem importância e eventuais, tudo sujo com escoamento sanitário a céu aberto;um restaurante/refeitório também imundo que dividia uma das suas paredes laterais com o alojamento; próximo a parede da fábrica, pelo outro lado, uma casa, com o telhado quase desabando, servia como escritório e almoxarifado.
Mocinhas tristes e sujas se amontoavam no refeitório, sentadas em bancos na área avarandada, onde ficavam as mesas, magras, olhar perdido, algumas estavam grávidas e exibiam as enormes barrigas, mal cobertas por blusas de malha rotas e encardidas, ou vestidos de algodão que mal lhe cabiam no corpo. As crianças brincavam nas pilhas de bagaço de cana, que ninguém se importava em recolher e que fediam apodrecidas. Homens magros e desesperançados reclamavam que o salário ficava ali mesmo na cidade/fábrica/prisão.
Entrei no estado do Piauí, quase no fim da tarde, por volta das quatro e meia, e tive o "privilégio" de assistir uma das cenas mais impressionantes da minha vida. O sol ainda estava muito forte. De um lado e do outro da rodovia, só deserto. Nem uma planta, nem uma pedra, só aquela paisagem cinza e o terreno crestado pelo calor até onde a vista alcançava. Ouvi, da estrada, um som, a princípio pensei que fosse algum tipo de pássaro. Parecia um pio alto, prolongado, mas à medida que o carro se aproximava ia se tornando mais pesado, mais cadenciado, foi quando percebi de onde vinha o som. Naquele deserto jazia uma casinha de sapé bem distante e, um homem batia a enxada naquele chão crestado. O corpo moreno brilhava de suor, ele estava sem camisa, usava só um chapéu e uma calça e tinha um saco com sementes passado pelos ombros que escorria pela lateral do seu corpo, chegando até a altura dos joelhos. Era o barulho da enxada que eu vinha ouvindo. Comandada pela persistência do homem em sobreviver, ela batia no chão, soltava faísca e emitia aquele lamento, um guincho agudo que reclamava a fome e o desespero.
No interior do Pará assisti, constrangida, ao almoço dos trabalhadores de uma serraria japonesa. Eles faziam fila única, cada um deles segurava um copo, um prato e uma colher de alumínio. Como presidiários, aguardavam a vez de pegar a bóia, um caldo grosso esverdeado de alguma coisa irreconhecível com um cheiro pavoroso.
Tanta coisa guardada em minha memória sobre essas viagens, que nela se estendem de uma enfiada as boas e as más lembranças. Lembro de muita coisa linda, como os montes e as pequenas e buliçosas cascatas em Minas, a neve em São Joaquim, as flores perfumadas que costeiam a estrada para Canelas, as procissões, as igrejinhas, as pequenas cidades de uma rua só, o por-do-sol nas cidades litorâneas e o amanhecer nas chapadas. Lembro da acentuada diversidade cultural, mas também, da inequívoca identificação social existente na pobreza - a rusticidade misturada à argúcia cabocla, a pressa e o distanciamento do morador das grandes cidades; o sorriso matreiro da menina ou do menino que vem vender alimentos nas beiras de estrada do norte ao sul desse Brasil, o milho, o fubá, a farinha, o pêssego ou as uvas.
É sempre aquele mesmo sorriso que, dependendo do momento, pode se esvaziar ou encher bem debaixo de um par de olhos sérios, que se consomem e nos consomem.
Porém são apenas antigas lembranças, as minhas.