CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Blik, o E.T


Ele chegou por volta das cinco horas da tarde, pousando sua pequena nave no meio do jardim de D. Iara, que estava nos fundos da casa, recolhendo a roupa lavada e seca do varal.
Ela nem viu quando Blik chegou, nem quando ele camuflou a nave, nem quando ele entrou na casa indo direto para o andar de cima enfiando-se no guarda-roupa da menina.
Por que ele fez isso?
Nem mesmo ele saberia dizer tamanha era sua tristeza.
Blik era um viajante solitário há muito, muito tempo, embora ele mesmo fosse considerado um jovem no seu planeta de origem, Orux.
Mas ele não gostava de recordar seu planeta. Sua tristeza trazia mil anos de história, mil anos percorrendo o universo em busca de alguma coisa que o fizesse feliz.
A menina chegou logo depois do colégio, foi direto para o quarto.
D. Iara ouviu os gritos.
Segurando uma vassoura apanhada às pressas na cozinha, ela partiu para o quarto da filha, pronta para enfrentar qualquer coisa...
Menos um extra-terrestre!
Blik estava apavorado, tinha estado tão imerso em sua própria dor que não sentiu a aproximação da criança, cometeu um grande erro em se deixar ver. A menina não parava de gritar, a mãe dela estava com uma arma pronta para matá-lo.
O que fazer? Como escapar? Ele estava apavorado encolhido no fundo do guarda-roupa. Outra vez metera-se em confusão. Ele sentia-se o pior ser do Universo.
Blik era estabanado demais, tímido demais, nervoso demais, assustado demais até os de sua espécie afastavam-se dele.
A menina parou de gritar e observou que a mãe estava realmente assustando aquela coisinha magra e cabeçuda em seu guarda-roupa. Cada vez que D. Iara sacudia a vassoura, a coisinha tremia.
Rosinha tinha sete anos, era uma criança alegre, naturalmente feliz e de bom coração, logo estava morrendo de pena daquela coisinha, por isso gritou:
_ Deixa mãe, que o Cabeção não vai nos fazer mal. Ele está com tanto medo que treme todo!
D. Iara parou, olhou e desatou a rir. Ela era uma mulher de boa índole e prestando bem atenção teve que concordar que o nome pelo qual a filha chamara a coisa. Aquilo tinha um cabeção enorme, os braços e as pernas como dois fiapos, uns olhos pretos esbugalhados, a boca um risquinho, duas orelhas pequenas e redondas enfiadas num rosto enorme e desproporcional. Aliás, o Cabeção era todo desproporcional, feinho que só!
Blik não entendia o que estava acontecendo. Parecia que os dois nativos daquele planeta estavam tendo alguma espécie de ataque. Ele pensou que os dois na sua frente iriam explodir.
A menina conseguiu ficar séria apesar das gargalhadas da mãe. Aproximou-se de Blik e estendeu sua mãozinha. Ele entendeu que o nativo queria tocá-lo, encolheu-se mais ainda.
Rosinha tocou-o. D. Iara parou de rir e tocou-o também. Blik agora estava certo que seria morto. As duas o ergueram devagar. Ele não resistiu. Para que? Iria morrer mesmo...

Quatro meses depois...

Blik e Rosinha, agora amigos, ainda riam muito quando lembravam a primeira vez que se encontraram.
Ele não acreditava que agora tinha uma família. Nem D. Iara acreditava, mas ela adorava poder dispor de um filho vindo do estrangeiro, que podia ficar invisível, que sempre achava as coisas perdidas e que podia ir a todo lugar rápido como o pensamento, embora aqui e ali quebrasse alguma coisa.
Mas Blik era amoroso, carinhoso e fiel como D. Iara nunca pensaria que uma coisinha feia, mirrada e estabanada pudesse vir a ser.
Todos o chamavam de Cabeção. Na verdade, ninguém sabia que o Cabeção se chamava Blik.
D. Iara mimava o seu bichinho cabeçudo, como ela o chamava vez ou outra. Fazia quitutes que ele adorava comer: era pudim de abóbora, sopa de nabo, carne moída com quiabo, tudo do melhor. Blik comia que lambia os beiços.
Blik conheceu o mar, samba, o futebol e o carnaval. Pela primeira vez era feliz.
D. Iara, como boa mineira, nas poucas ocasiões em que se irritava com Blik, dizia em alto e bom som:
_ Pois é Cabeção, ‘ocê já virou cidadão brasileiro, ‘tá cheio de nove horas.
Blik sorria todo satisfeito.

Moral da História: Aqui, no Brasil, até extra-terrestre se dá bem!

Nhá Noca


Quando ela morreu, os sobrinhos: Sebastiana, Antonio e João de Deus, não tiveram dinheiro sequer para comprar um caixão. Os vizinhos, já que não tinham outros parentes, se cotizaram para dar a ela um enterro mais ou menos decente.
Nhá Noca era conhecida no vilarejo por sua avareza extrema. A casa em que morava com os sobrinhos era um barraco velho de piso de terra, paredes de sapé e o telhado cheio de cupim. Seu Alves, dono da farmácia, o alugou para Nhá Noca há muitos tempo e fazia anos que não cobrava nem recebia o aluguel. Seu Alves era boa gente, tinha pena das crianças, pois eles trabalhavam como escravos sem qualquer tipo de retorno, seja afetivo ou financeiro.
A velha era terrível. Certa vez um viajante desavisado, debaixo duma chuva torrencial, atolou o carro na frente do seu barraco. Ele pediu para pousar ali e Nhá Noca concordou, mas cobrou os olhos da cara pelo pouso. O homem reclamou, xingou, mas pagou.
No dia seguinte, sob o sol causticante do meio dia, fez os sobrinhos desatolarem o caro. As pobres crianças tiveram que cavar, com uma enxada velha e uma pá de cabo quebrado, o barro duro que colara nas rodas. Duas horas mais tarde, suados e com calos de sangue nas mãos, elas conseguiram liberar o veículo.
O homem foi embora sem olhar para trás, nem agradeceu o esforço dos meninos tanta era sua raiva.
Nhá Noca vendia tapioca aos passantes da rodovia, isto é, ela não, as crianças, a quem ensinou fazer e obrigava a vender. Sebastiana fazia e seus irmãos vendiam. O dinheiro das vendas ou qualquer outro que caísse nas mãos deles, ia para Nhá Noca que o escondia. Para todos os efeitos Nhá Noca nunca tinha dinheiro e nunca os meninos, por mais que se esforçassem, conseguiram descobrir onde ele estava escondido.
As compras de mantimentos eram feitas apenas uma vez que tudo tivesse terminado, resumiam-se a um saco de farinha, um saco de fubá, charque e um saco de goma para as tapiocas. A velha tinha cuidado de comprar tudo na cidade. Saía a pé, de madrugada, e só voltava à tarde com os pacotes.
Se alguma das crianças ficasse doente, Nhá Noca ia correndo na casa de uma velha amiga, a parteira da vila, que gratuitamente fazia uma mesinha. Às vezes o doente demorava a se recuperar, outras vezes o remédio do mato não fazia efeito, mas isso, de fato, não era problema para Nhá Noca que não os deixava sem trabalho um só dia. João de Deus, em conseqüência dos maus tratos, teve pneumonia três vezes, acabando por tornar-se o mais frágil dos irmãos.
Aqui e ali as pessoas procuravam ajudar as crianças que não tinham culpa por ter nascido órfãos.
Contando a partir do segundo ano de vida de Sebastiana – a irmã mais velha – foram dezessete anos de sofrimento. Agora, Nhá Noca tinha morrido e eles queriam saber onde estava o dinheiro. Em vão eles revistaram o barraco, tentando encontrar a fortuna. Cavaram no piso e no quintal, furaram paredes, subiram no telhado e reviraram as telhas. Nenhum centavo foi encontrado.
Por hábito criado pela dor, sofrimento e miséria compartilhados, não se separaram e prosseguiram sua faina diária de vender tapioca na beira da estrada.
Algum tempo após o falecimento da tia, a provisão de goma acabou e Sebastiana resolveu que deveria, como sua tia falecida, ir comprar mantimentos na cidade. Acordou bem cedo, aguardou o leiteiro, o seu José, homem dos seus setenta e poucos anos e muito alegre, levou a moça na charrete. No caminho ele confessou que até achava engraçado o jeito da “Noquinha” , como chamava Nhá Noca. Ele revelou para Sebastiana detalhes interessantes da vida da tia, inclusive sobre a conta bancária...
Sebastiana nem comprou os mantimentos. Ela esperou, na porta do Banco, a hora de abrir e a chegada do leiteiro o qual tinha feito prometer que a ajudaria com o gerente.
Já passava das dez e meia da manhã quando seu José apareceu, Sebastiana estava aflita e empurrou o homem banco adentro sem dar ouvido aos motivos da demora. Seu José mostrou ao gerente a certidão de óbito de Nhá Noca e apresentou Sebastiana. O gerente ouviu e viu que se tratava de gente muito necessitada, mais por gosto de ajudar do que por outra coisa, decidiu que passaria para Sebastiana o juro mensal da aplicação da tia falecida.
Sebastiana pediu ao seu José que mantivesse tudo em segredo, pois o mundo estava cheio de gente ruim. O leiteiro compreendeu e assentiu. Nhá Noca era muito rica e o juro do dinheiro serviria muito bem para manter a ela e aos irmãos.
Do lado de fora do Banco, depois de agradecer e se despedir de seu José, resolveu ir fazer compras, foi quando começou a cismar sobre várias coisas. O seu irmão Antonio não era bom da cabeça, ficara meio destrambelhado de tanta pancada que levou da tia e de tanta fome que passou. João de Deus, apesar de ser bonzinho, era enfermiço, qualquer corrente de ar o fazia adoecer.
Só restava ela mesma que achava, com muita justeza, ter direito de formar sua própria família, ter filhos, morar numa cidade maior, ter uma vida melhor. Não iria ficar cuidando dos irmãos o resto de sua vida.
Tudo teria que ficar do mesmo jeito por algum tempo. As únicas pessoas que sabiam do dinheiro não falariam nada...