CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Bala Perdida


Ela colocou o copo bem na ponta da mesa ao levantar-se para atender ao telefone. O copo ficou pendurado ali, na borda do precipício de madeira e vidro decidindo se caia ou não, aguardando o retorno dela.
A janela de vidro aberta deixava entrar a forte brisa marinha, cheirando a peixe, sal e sol, entrava também o suave marulhar das ondas não tão próximas, o ruído das crianças divertindo-se no playground do condomínio, aqui e acolá um som de carro aproximando-se pela rua estreita de calçamento que desembocava na favela. Várias vezes, à noite, dava para ouvir também, daquela janela, os ecos das balas que corriam sedentas perseguindo seus destinatários ou, sem rumo, algum inocente.
O copo continuava na ponta da mesa, vibrando vez ou outra, estremecendo pela força do vento que entrava, teimando fazê-lo brincar de joão bobo.
Ela continuava de costas para a sala. O fio do telefone, muito esticado, vinha da tomada na parede oposta à porta do quarto onde ela se encostava. Discutia com alguém, falava rápido, coisa importante.
Tudo aquietou-se por alguns segundos, como num slow motion, o copo vibrou com mais força, estilhaçando-se ao cair, seus pedaços minúsculos espalharam-se pelo chão. O resto de líquido que havia em seu interior escorreu, manchando o tapetezinho de juta comprado por ela num brechó.
O fio do telefone esticou um pouco mais quando ela deslizou pela porta abaixo. Sua mão não largou o fone, que ainda teimou, por angustiados segundos, uma curiosa seqüência de alôs, antes de emudecer.
A blusa branca que vestia salpicou-se de vermelho, quando seu peito esquerdo abriu-se como um botão de rosa maligno e despedaçado, deixando escapar através dele o metal aquecido que alojou-se na parede a sua frente.
Surda, cega e muda ela ainda balançou de leve a cabeça na súbita e derradeira compreensão do ocorrido.

Perdão


Minha filha é lindíssima por dentro e por fora!
Quando ela nasceu todos queriam tocá-la, beijá-la e eu entre o ciúme e o orgulho não queria dividi-la com ninguém. A vida nos separou por alguns anos, muitos anos, mas eu sempre alimentava a esperança de voltar a vê-la. Esperança que guardei dentro de uma caixa, dentro de um baú, no fundo do corredor mais escuro e dentro do quarto mais escondido que havia na minha biblioteca de memórias.
Eu não revelava a existência de minha filha a ninguém e seguia vivendo, escondendo-a até de mim. Como na história de Pedro, o pescador, eu a negava por covardia, para não sofrer por amor, por não querer sentir o desejo da esperança.
Um dia, minha filha me encontrou e conversamos, enquanto conversávamos, com todo o cuidado voltei ao velho quarto, no fundo do corredor escuro da biblioteca das memórias e abri o baú já bem velho e empoeirado. Fui abrindo devagar, sentindo o peso da tampa, ouvindo o seu ranger rabugento, ele reclamando sua propriedade e sua violação.
Peguei a caixa, abri, pensei que a esperança ainda estivesse ali, mas dentro dela só haviam lágrimas, angústias e frustrações que se transformaram em pó quando as toquei. Desesperada procurei minha esperança, fiquei vagando pelos corredores da memória procurando-a.
Minha filha abraçou-me, senti sua pele, seu cheiro, foi ela quem me trouxe de volta daquela busca inútil e foi nela que encontrei minha esperança perdida, refletida em seus olhos , em seu abraço.
Nós nos amávamos, apesar da separação, apesar dos erros e do tempo.