CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Razão


O menino estendeu a mão e tocou na borboleta azul que voava em volta dele, não fazia muito tempo que ela pululava de uma flor para outra, esticando aqui e ali sua enorme língua para sugar-lhes o néctar.
Os dedinhos da criança ficaram cobertos com um pó brilhante, que ele limpou nos shorts. A borboleta revoluteou ainda um pouco mais perto dele antes de voar para outro jardim. O menino logo esqueceu a borboleta e passou a observar o jardim de sua casa que era muito bem cuidado, tinha muitas plantas com flores coloridas e perfumadas. Ele gostava de ficar brincando ali. Ajoelhou-se na grama para ver melhor uma formiga bem pequenina carregando uma folha enorme. Ele tentou tocá-la, mas não havia como sem esbarrar na folha. Sem opção, ele ergueu a folha trazendo com ela a formiguinha bem agarrada ao seu tesouro.
_ Solta! Disse a formiga.
O menino virou a cabeça para um lado depois para outro tentando localizar de onde vinha aquela voz. Ele tinha ouvido alguém falar, tinha certeza.
_ Solta, seu cego! Repetiu a formiga.
O menino olhou para a formiga presa à folha em sua mão. Ela perguntou:
_ Além de cego você é surdo?
Apesar do susto, ele não largou a folha, pelo contrário, aproximou-a bem dos próprios olhos.
_ Formiga não fala, cachorro não fala, gato não fala. Isso foi o que meu pai disse...
_ É mesmo? E eu estou fazendo o que, seu tolo? Perguntou a formiga agitando as perninhas.
O menino pensou, pensou, pensou. Pensou tanto e demorou tanto que a formiga impaciente gritou:
_ Ei! Você vai me soltar ou não? Preciso ir para casa, minhas irmãs devem estar pensando que eu morri.
O menino surpreendeu-se com o atrevimento da pequena formiga, afinal de contas ela era só uma minúscula formiga e ele poderia matá-la quando quisesse.
Ele disse isso para ela e acrescentou:
_ Você é uma formiga que fala muito. Preciso pensar no que vou fazer com você. Se falar para o meu pai que falei com uma formiga ele não vai acreditar.
_ E eu com isso? Perguntou a formiga extremamente irritada.
_ Acho que vou levar você para casa, daí meu pai vai acreditar que não estou mentindo.
_ Não vai não! Refutou a formiga que de uma vez soltou-se da folha caindo na grama, onde desapareceu. O menino tentou encontrá-la, mas não conseguiu. Chateado e preocupado decidiu que não contaria nada para seu pai, nem para ninguém. Quando entrou em casa, o pai perguntou:
_ Por que você voltou tão cedo do jardim? Normalmente você só entra na hora do almoço...
_ É. Respondeu a criança laconicamente.
O pai observou que o filho estava sério, alguma coisa tinha acontecido.
_ Vamos, lá, diga-me porque você está tão sério? Insistiu o pai. O menino contorceu o rosto. Pela primeira vez não sabia como proceder - devia contar ou não contar.
_ Pai, lembra que uma vez o senhor me disse que bicho não fala?
_ Lembro. Foi há alguns dias atrás quando lemos a fábula da raposa e da onça, até expliquei para você a diferença entre história, fábula e lenda. Quem não bate bem da bola é que ouve bichos falando, você ouviu algum bicho falando? O pai finalizou com um acesso de riso.
_ Não, só estava pensando num filme que vi na escola. Falou o menino resolvendo não contar.
Seu rostinho endureceu. O pai rapidamente esqueceu da conversa com o filho, quando começou a assistir pela televisão a partida de futebol tão esperada. O menino coçou o nariz com o dedo, depois a orelha. Foi para a cozinha comer alguma coisa, revoltado, não lavou as mãos.
Quando a mãe chegou, o marido assistia ao jogo na sala, seu filho estava na cozinha comendo
ao mesmo tempo sorvete e feijão frio na panela. Ela não acreditou, bastava sair um pouquinho para tudo ficar de pernas para o ar. Pegou o filho no colo, para banhá-lo, não sem antes parar na sala, onde ralhou com o marido que fez de conta que ouviu, pois estava na hora de uma cobrança de pênalti, momento importantíssimo do jogo.
Horas depois a mãe terminou de organizar a casa e de fazer a janta. Durante o jantar ela e o filho ouviram solenemente os comentários do pai sobre o jogo. Em seguida ela o levou para o quarto, colocando-o na cama para dormir. Durante todo esse tempo o menino reservou-se o direito de ficar calado.
Quando a mãe saiu do quarto, o menino abriu os olhos no escuro, ele ficou admirando as sombras que se projetavam dos brinquedos e dos objetos do quarto. Raciocinava:
_ Papai disse que formiga, mosca e borboleta são espécies de bicho, portanto não falam. Se as formigas não falam como o papai disse, por que aquela formiga falou comigo? Mas se as formigas falam, por que o papai me disse que bicho não falava? Talvez o papai não saiba que as formigas falam. Talvez só aquela formiga fale. Talvez eu devesse contar para a mamãe que ouvi uma formiga falar...Se eu contasse para ela, será que ela contaria para o papai? Mas o papai falou que só maluco ouvia bicho falar. Mas eu não sou maluco, a formiga falou e tão certo quanto isso, é que o papai só entende mesmo é de futebol.
Pensando assim, o menino virou de lado e foi dormir. Não sem antes mandar o grilo calar a boca.

Sem Excessos


Certa vez li uma reportagem afirmando que o açúcar fazia mal ao organismo humano. Posteriormente, uma emissora de televisão fez uma matéria de uma hora sobre o mesmo tema, teve entretanto que abrir espaço para as opiniões contraditórias dos especialistas.
A indústria de açúcar lançou campanhas publicitárias para não perder o seu mercado consumidor e as indústrias de adoçantes enriqueceram com o novo produto agora transformado em saudável hábito alimentar.
Uma amiga minha, que era louca por doces de todos os gêneros, persuadida pela mídia, passou imediatamente para uma dieta "diet" perdeu alguns quilos e ganhou um estresse pela abrupta abstinência. Outro amigo também influenciado, viciou-se de tal forma nos adoçantes que se tornou um chato proselitista.
Bem, enquanto os especialistas não concluírem (se é que algum dia o farão) definitivamente sobre o açúcar ser uma substância boa ou má para o ser humano, eu vou tentar levar a minha vida com açúcar e com afeto e como diria um professor que tive : Amigos, vamos aprender a não nos levar tão a sério!

Inquietude


Fui professora de ensino fundamental e médio durante alguns anos, conheci muitas crianças com sérios problemas de socialização e aprendizado, a maioria deles criados pelos próprios familiares.
Percebo que a maior parte dessas crianças são vítimas do costume, dessa tradição cultural arraigada do "ter filhos", como se as mulheres se obrigassem a tê-los como uma montadora que mais produz carros ou uma fábrica que mais produz peças de roupas.
A nossa justiça e o nosso governo, sob certo aspecto, contribuem com a legalização e o assistencialismo dessa conduta, de fato e de direito, filhos e mais filhos são feitos a cada ano, como Deus criou batatas.
A década da educação propiciou o incremento de Faculdades de Pedagogia por todo país, mas não formou educadores sérios, professores compromissados com o ensino, muito menos uma juventude com o hábito da leitura.
A obrigatoriedade da criança estar em sala de aula não implica numa maximização do aproveitamento educacional.
As escolas públicas confundem ensino de qualidade com estatística de qualidade e os indicadores educacionais e os projetos governamentais de apoio à educação passam longe de questões fundamentais como limites sócios-familiares, valores morais e éticos, nacionalismo, educação política e crítica e de problemas mais específicos como a dislexia, a desnutrição e a desassistência médica e psico-pedagógica, além, é claro, do aprendizado real.
Já perdemos, educacionalmente falando, desde a ditadura militar três gerações e isso não parece incomodar a ninguém.

A Perda


Ele segurou a minha mão no dia anterior a sua morte e me disse para eu nunca esquecer: ele fora o único homem que tinha verdadeiramente me amado.
Lembro que o choro ficou esperando até eu sair do quarto do hospital. A vida voltava a perder o significado para mim, pois eu sabia que ele iria morrer. Meu primeiro encontro com a morte foi em 2004, quando vovó faleceu, o segundo foi em 2006, quando meu filho com apenas 28 anos sofreu um acidente em sua moto, meu terceiro encontro agora em 2009 - o meu marido. A cada um desses encontros eu sentia que perdia um pouco de mim mesma, sentia-me desumanizada.
O que é viver, se necessária e obrigatoriamente morremos?
Voltei para casa enxergando as coisas - carros, pessoas, locais, como através dum filtro baço. Dirigi o carro cuidadosamente como se eu fosse a morta. O ruído da cidade parecia o choro das carpideiras aos meus ouvidos.
Quando no dia seguinte recebi a confirmação do seu falecimento era como se eu nada sentisse . Eu sabia que as lágrimas estavam caindo dos meus olhos, sabia que meu ritmo cardíaco estava acelerado, que minhas mãos tremiam mas era só uma reação orgânica, a reação emocional tinha vindo antes , no dia anterior, com a certeza e a interiorização de nossa finitude.
O que é morrer, se necessária e obrigatoriamente vivemos?

Para Bento Marzagão - beloved husband - 26/01/63 a 02/01/2009

Motivação


_Quero ser escritora!A voz quase não lhe passou pela garganta.
Os outros alunos riram, a menina, nervosa, continuou em pé encarando o professor.
Ele observou a aluna, uma menina magra, cabelo cortado bem rente num corte masculino, olhos castanhos enormes, tímida, depois olhou para a redação assinada por ela, entitulada "Pulgas bebem água?".
Ele sorriu, ela levava jeito, as palavras eram fáceis, as idéias corriam velozes e bem ordenadas no papel. Até quando aquela criança perseguiria seu sonho de ser escritora? Até ter o primeiro filho? Até perceber que as pessoas nesse país não gostavam de escrever muito menos de ler? Até ter que optar entre ganhar dinheiro ou seguir sonhando?
O velho mestre sentou-se devagar, empurrando os papéis sobre a mesa que estavam a sua frente, empurrando suas lembranças antigas e seus antigos sonhos, crer ou não crer...
_ Muito bem, disse ele para a aluna, mas você tem que aprender a gramática e eu agora vou cobrar muito mais de você, entendeu senhora futura escritora?
A menina fez que sim, o rosto afogueado. O professor devolveu a redação para ela com um seis vírgula cinco como nota, cheia de anotações de erros em vermelho.
Mas durante todo o resto de sua vida, ela lembraria apenas da frase postada pelo professor em letra miúda no canto superior direito de sua redação:Parabéns por sua criatividade!

Deserto

Um amigo procurou-me esta manhã muito preocupado porque, segundo ele, não suportava mais o seu chefe. Meu amigo afirmava que apesar de ser um chefe competente, era também vingativo, passional e truculento.
Meu amigo sentia-se perseguido, porque em algumas ocasiões havia defendido opiniões que contrariaram as opiniões do seu chefe. Perguntou-me o que fazer.
Eu considerei a possibilidade de uma mudança de setor para evitar um confronto, ele afirmou não ser possível. Perguntei se não havia a possibilidade de uma transferência, ele também negou. Então, eu disse, porque você não o procura e diz como e porque está se sentindo tão mal. Ele me olhou com um ar de espanto e disse:
_Você está louca? Quer que eu perca o emprego? Eu não retruquei, apenas mostrei a ele meu canteiro de hortelãs, vazio.
_Há alguns meses plantei hortelãs nesse canteiro - eu disse, elas cresceram, mas a terra estava fraca e apesar de adubar e molhar constantemente, minhas hortelãs eram frágeis e não cresceram ou enraizaram o bastante, secaram, morreram. Eu poderia ter mudado a terra do canteiro, poderia ter colocado um pouco de uréia, mais adubo, mais água, mas simplesmente deixei que as hortelãs morressem porque considerei que meu esforço seria maior que meu desejo. Quando terminei de falar foi que percebi que ele já havia ido.