CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A Sacada


Ela desanimou...Deu uma volta em torno do pequeno salão e olhou para a parede oposta coberta por uma única cortina longa que caia sobre o chão como uma calça comprida bufante, cheia de pregas. Balançou a cabeça, pensando: que combinação medíocre! Certamente o responsável estava bêbado quando fez aquele arranjo entre a parede e a cortina de puríssimo mau gosto. Ela estava cansada, visitara vários apartamentos antes daquele, sem ter encontrado o que queria. Ainda esteticamente ofendida puxou a cortina e viu uma porta de vidro enorme que dava a uma grande área aberta, uma sacada. O piso era forrado por lajotas brancas em mármore, nos quatro cantos daquele espaço havia jarros com plantas ornamentais diversas, num canto, uma diminuta fonte negra derramava água em jatos descontínuos. Cadeiras e canapés em cores pastéis espalhavam-se informalmente, dando ao ambiente um aspecto clássico misturado ao moderno, tudo de muito bom gosto, que emanava aconchego. Ela abriu a porta lentamente e entrou, sentiu que se transportava para outro mundo. Pisando devagar com seus sapatos de salto agulha dirigiu-se a fonte, examinou-a, tocou-a. Ah! Que linda! Murmurou. Ali, sim, seria um bom lugar. Numa cadeira de madeira trabalhada ela deixou cair sua bolsa caríssima. Tirou os sapatos, pisando o mármore frio, a sensação foi agradável. Caminhou até a sacada, debruçando-se no parapeito. Lá embaixo, a rua seguia fina como um espaguete, naquele horário já atulhada de carros. Sorrindo, subiu o parapeito, ajeitou meticulosamente seus cabelos, olhou para trás, o ambiente realmente era perfeito, até sua bolsa sobre a cadeira combinava. Saltou. Não recordou sua vida, não sentiu remorso, não lembrou de ninguém. Em sua memória guardou até o fim o único registro do que sua fútil percepção considerava como beleza - uma sacada bem decorada e vazia.

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