CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Lagoa do Mucuim


O Sapo candidatou-se à presidência do Sindicato dos Sapos e Afins. Fez sua campanha pautada nos pontos fracos dos outros candidatos e estabeleceu uma meta - se eleito, iria pleitear a utilização da Lagoa do Mucuím, local favorável à desova, mas tomado pelas piranhas. Ora, tudo que era sapa queria desovar naquela lagoa e por isso, sem mais, elegeram o Sapo à presidente do Sindicato. Um ano depois, a Lagoa do Mucuím continuava ocupada pelas arrogantes piranhas. As sapas eleitoras, chateadas, foram falar com ele, mas tiveram que se contentar em falar com a sapa-secretária e marcar uma audiência porque ele era um Sapo por demais de ocupado. Uma semana mais tarde foram à audiência. O Sapo sentado por trás da enorme pedra de reunião mastigava indolentemente um pedaço de mariposa branca, algumas sapas assobiaram porque mariposa branca era um quitute muito caro e difícil de encontrar naquela região. As sapas fizeram um círculo e a mais atrevida delas saltou: _ Sapo presidente, o senhor prometeu que ia por as piranhas pra fora e ocupar a Lagoa do Mucuím pra nós. _Não senhora, respondeu o Sapo mastigando ainda o pedaço de mariposa. As sapas entraram em rebuliço, saltitavam e sapeavam soltando pequenos traques com as línguas. A sapa atrevida revidou: _ O senhor disse sim, prometeu. Agora vem dizer que não disse, o senhor é um mentiroso, enganador e oportunista. _Sim e não, respondeu o sapo impassível. O ruge ruge aumentou, as sapas ficaram em polvorosa. O Sapo, então, olhou para elas condescendente e explicou: _Queridas, eu disse "sim e não", porque vocês apenas se equivocaram. Vejam bem, eu disse na campanha que pleitearia a utilização da Lagoa do Mucuím, mas eu faria isso junto ao Sindicato das Piranhas e o fiz, só que não entramos num acordo até agora! A sapa atrevida então disparou:_Não foi isso que nós entendemos, não. _ O que vocês entenderam? Perguntou o Sapo, sorrindo. _Que iríamos brigar? Fazer uma revolução? Logo com as piranhas? Ora, nós sairíamos perdendo! O correto é apelar para os meios legais, o que já estou fazendo. As sapas engoliram caladas e se retiraram. Tem mais de vinte anos que o Sapo presidente morreu, seu filho, seu neto e o seu bisneto o sucederam no sindicato. As filhas, netas e bisnetas das sapas eleitoras sucederam suas mães, avós e bisavós no antigo desejo: desovar na Lagoa do Mucuím. O processo continua tramitando.

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