CINQUENTA ANOS

Há quarenta anos, vivo imaginando o viver. Ainda não construi a imagem ideal, creio que em mais quarenta anos ainda não terei conseguido.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A Era de Narciso







Conviver pode trazer silêncio e vazio
Consuetudinários
Um sorriso na multidão
Pode ter vários destinatários
Para cada morte haverá nascimentos
Para cada tristeza bons momentos
A beleza é como se vê
O meu certo ser errado para você.
Nada se cria, mas nem tudo se copia
Se a transformação impera
Então a morte é uma quimera.
Se para cada crescimento há um retrocesso
O que se dirá da ressaca, após o excesso?
Deus persegue os ateus?
Os crentes a absolvição?
O homem muito temente a Deus
Abjura o próprio irmão?
Frases vãs perpetuam-se como verdades:
Que a sabedoria vem com a idade.
Mas se continuam os homens em desvario
Solipisistas, cínicos a influir
Em banalizar, simplificar, reduzir
Sabedoria não vem com a antiguidade
Com ela vem o bafio
Muitas vezes a vaidade
A cerviz dura da arrogância
Que se projeta como intolerância
A lassidão torna-se regra no existir
Exceções: amar, respeitar, ouvir.


09/05/2015



ABAIXO O JEITINHO NACIONAL!





Edith Piaf disse uma vez "quando as cosas estão muito ruins, fatalmente, surgirá uma saída". Parece que as pessoas estão sofrendo uma espécie de ressaca moral coletiva, é algo como Zumbilândia.
É como se tudo estivesse se desmanchando numa fluidificação sem retorno, não há oásis, não há no que se agarrar, em quem confiar ou no que confiar. Aqui e ali aparece alguém que acha que está tudo bem ou que vamos superar ou que já passamos fases difíceis, quando escuto ou vejo pessoas do tipo eu me pergunto se essa pessoa está tendo um surto esquizofrênico, se ela quer ser apenas perfeitinha, do contra para parecer legal ou se é um otimista, idealista convicto de fato. Concordo, não estamos em Auschwitz ou em Cuba ou na Venezuela, são outras histórias, a nossa história, de longe, se parece àquelas, mas a nossa história é nossa.
Esse processo de fluidificação vem de muito tempo desde o dia que alguém brilhantemente sintetizou que tudo no Brasil tem um "jeitinho", omitindo que o "jeitinho" da parte sempre prejudica o todo.
O nosso problema é perda de essência, quando culturalmente, educacionalmente, historicamente, politicamente, moralmente incorporamos a ideia do obter sucesso em desfavor do outro.
Ninguém quer saber se o outro passou a vida inteira ralando para ter um carro do ano, importante é que ele deu um "jeitinho" para comprar o dele fiado, depois é só entrar com uma revisional.
Ser esperto, inteligente é ter um parente no governo que ajeita um contrato para a sua empresa, ser esperto é ficar na contra-fila do ônibus e ser o primeiro a sentar, ser esperto é sempre ter um dinheirinho no bolso para molhar a mão do guarda de trânsito, ser esperto é ter uma gatonet, é brigar para aumentar a nota do filho, sabendo que ele não merece ou inventar que o filho estava doente - quando estava dormindo - por isso não fez a prova.
É muito bom ter um governo tão preocupado com a miséria da população, principalmente, quando se aproxima do ano eleitoral, mas o mesmo governo nada faz para melhorar a seca no Nordeste, para aumentar a oferta de emprego, para, ao obrigar legalmente a inclusão nas escolas arcar também com toda a infraestrutura necessária a sua consecução, ou seja, escolas com salas arejadas, amplas, psicólogos, pedagogos, ambulatório, rampas.
Nada é feito para formar bons médicos dar os meios, melhor chamar médicos de fora, já prontos.
Então, o nosso país é o país dos pensamentos, palavras e obras inacabadas ou, pior, o país dos paliativos, dos placebos, o país dos coitadinhos, que sempre sofreu sob o jugo das elites e do imperialismo capitalista ... Não estamos reclamando do governo que elegemos, estamos procurando culpados.
Quais são os critérios que o povo brasileiro utiliza para escolher seus dirigentes? Os livros que eles leram ou publicaram sobre matérias específicas? As suas competências? Os seus feitos, preparo? Ou, porque eles prometeram um dinheirinho a mais? Um emprego, a dentadura, os óculos, a calcinha, a aposentadoria?

Precisamos de dirigentes probos ou de pessoas a quem possamos responsabilizar? Tudo se justifica. As ações dos eleitores justificam-se pela falta de estudo, pela pobreza, por ignorância política, mas essas justificativas se banalizaram porque ninguém de fato se importa para mudar o âmago, mais fácil envernizar a casca. O povo os elege porque pouco sabe sobre eles e eles se candidatam porque querem auferir seus próprios interesses em desfavor da população. O que aconteceu fisicamente em Mariana aconteceu em nós: a lama escorreu e se espalhou. Perdemos a essência, mas ainda nos resta o jeitinho nacional.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

CUCARACHAS



Ela colocou cuidadosamente a taça de vinho sobre a mesa de vidro. Gostou de ouvir o tilintar do vidro sobre o vidro, lembrava-lhe moedas entrechocando-se. Dava-lhe a sensação de poder.

“Posso tomar um bom vinho numa fina taça, paguei com boa parte de minha vida por isso”.

Revoltada, jogou o cabelo para trás. O celular vibrou. Ela apenas olhou o número na tela. Não iria atender. Podia imaginar todo o diálogo com Carmem. O mesmo de sempre.  A chamada encerrou-se sozinha. Ela fechou os olhos, recostou-se na poltrona. A casa estava silenciosa. A janela aberta deixava entrar a suave brisa da noite primaveril. Ainda com os olhos fechados visualizou o jardim iluminado. O caminho que levava da garagem para o portão, a saída entre os arbustos e as pequenas árvores bem podadas, tanto quanto foram bem podadas as suas infância e adolescência. Tudo naquela família, naquela casa era bendita pela forma e maldita pelo conteúdo.

 “Antes, eu sofria por acreditar nunca ter sido o que queriam que eu fosse. Depois, descobri que o desejo familiar para comigo, poderia ser bem mais niilista. Daí, eu concluí que seria mais produtivo pensar no que eu poderia ser para mim mesma, pois a imutabilidade da vida humana tanto quanto sua infinitude resume-se a uma impossibilidade”.

O celular voltou a vibrar. Entre abrir os olhos e atender ao telefone ela decidiu tomar mais um gole de vinho. Esticou a mão, alcançando a taça.

“Se eu ficasse cega não me perderia dentro desta casa, talvez me perdesse em mim”.

 A vibração começou a irritá-la. A persistência de Carmem, a lembrança da sua voz sibilada, de tom monocórdio, as frases espaçadas, como se fossem mastigadas e pulverizadas antes de serem ditas, extremamente características à essência predadora de Carmem. Familiares demais para querer ouvi-las.

“Por que as pessoas não deixavam, simplesmente, de existir?”

“Não uma morte, um desaparecimento. Não um desaparecimento, um esquecimento. A existência eliminada da memória de todos”.

“As pessoas passam a vida preocupadas em construir memórias, imagens que fazem de si para si, na verdade, sempre com a intenção subjacente de destruir as memórias e imagens alheias. Quem se arvora iconoclasta é o pior dos hipócritas!”

Lembrou-se de sua madrasta que morreu de Alzheimer. Ela zombava sempre silenciosamente das pessoas. Suas críticas, quando as proferia, eram sardônicas, cruéis, profundamente ferinas.

“Morreu sorrindo ou era um esgar de escárnio para os que permaneciam?”

O pai morreu de cirrose. Um homem lacônico e omisso. Subtraiu-se de amá-la como filha durante toda a vida, quanto à mãe biológica ela nunca conhecera e nunca ninguém lhe falou sobre ela.

Como lhe dizia Carmem: “Sua vida, minha querida, é um legado da morte.”

“Eu seria feliz se me esquecesse de mim?”

“Não, não, eu serei menos infeliz se Carmem não me esquecer.”

Carmem era a sua meia-irmã, filha da mulher de seu pai. Tal mãe, tal filha, ambas, cúmplices naquilo que melhor sabiam fazer: odiá-la e tornar a sua vida um suplício.

Olhou para o pequeno relógio de ouro branco em seu pulso, marcava meia-noite. Ela levou a mão ao colo onde repousava um dos caríssimos colares de sua madrasta, acariciou-o. Gostava de joias, havia mais como aquelas guardadas em sua bolsa.

 “Não existe felicidade, nós nos esquecemos por um tempo o quanto somos infelizes”. “Todos nós imaginamos o que e quem somos ou o que e quem são os outros, vivemos a partir de presunções, como o cego de nascença presume as cores. O que aconteceria se todos parassem de presumir? O cego de nascença que passasse a ver... Até quando veria tudo com bons olhos?”.

Poderia desligar o telefone, mas certamente correria o risco de sua irmã vir até a casa. Exigindo uma justificativa, não, através de um expresso questionamento nervoso, Carmem não era assim, mas pelo silêncio cáustico impresso no olhar parado, no ódio transpirado por cada um dos seus poros.

Se ela não atendesse, Carmem ficaria ligando a cada meia hora, insistindo, satisfazendo-se em perseguir pacientemente a presa, como um animal faz. A irmã era assim, desde pequena, sabia, à maneira dos ratos, cavar subterrâneos nos alicerces mais sólidos. Ela tinha paciência, determinação, persistência e satisfação. Comprazia-se em destruir coisas e pessoas.

“Seria bom ver seus olhos de roedor, pequenos e sem cor, pela última vez?”

“Não, não seria”.

Talvez lhe agradasse ver a expressão de espanto de sua meia-irmã se soubesse que a “presa”, ao longo do tempo, adquiriu imunidade como uma barata. Ela descobriu o que poderia ser para si mesma: um inseto cretino, que não se sentia nem um pouco culpado por sobreviver. Ela foi além, passou a considerar a vida sem remorsos e sem culpas como algo real, tangível, indefectível, aristocrático.

“O que é a culpa senão a negação consciente de um ato inconsciente presumidamente incorreto?”

“Eu existo por que é da minha natureza existir e continuarei a existir, apesar das pessoas. Viver não implica necessariamente em ser feliz, todavia, viver o mais longe possível do ódio implica em permanecer sã e salva por muito mais tempo”.

Brindou-se com o último gole do vinho.

A campainha soou, era o táxi. O celular vibrou mais uma vez. Agora ela poderia desligá-lo, mas não o fez.

“Que família eu tive! Nelson Rodrigues dizia que “Toda família tem um momento em que começa a apodrecer (...) ”,significa que a família foi boa até certo dia, quando surgiu a degradação. No meu caso peguei o bonde na parada do inferno. Pelo menos, poderei cair e me levantar de qualquer jeito, em qualquer lugar, a qualquer hora, sem me incomodar. Por compreender o valor da preservação, da minha autopreservação, posso confirmar a sabedoria de encontrar benefícios no malefício”.

Ela se ergueu, arrumou os cabelos voluptuosamente. Pegou a mala e saiu da casa que já não era dela nem de Carmem deixando a porta entreaberta. Ali, deixou uma poltrona, uma mesa com tampo de vidro, o celular e uma taça vazia de vinho para sua meia-irmã como recordação pelo que jamais teria de volta.

Carmem irá desfrutar do que eu deixei? Óbvio que sim! Desfrutará com ódio para o resto de sua mesquinha vida. Provavelmente os levará para casa onde poderá, ao vê-los diariamente, arquitetar sua vingança. O que eu sinto em relação a isso? Nada. Eu deveria sentir satisfação, todavia não sou Carmem... O passado me parece distante, ausente, indolor. É como se eu tivesse nascido hoje, agora. O inseto se transforma, sai do casulo.

Entrou no taxi e partiu. Ela vendera, sorrateira e meticulosamente, todos os bens da família como um belo presente de aniversário.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O Nome


Os dedos curtos dançam ferozmente
com o instrumento loucos dançarinos
Um tango ligeiro, momento que desmente
O desalento ao desenhar os símbolos pequeninos...

Sob as garras, quase vergado
vai o lápis sobre a celulose 
dando forma as letras, significado
Aos sinais grafados com escoliose


Um nome, seu nome arquejante é soletrado
A ferramenta entrededos pulsa erótica
Ela que o torna armado
Do saber guardado em sua cadeia amniótica
Liberta a alma naquela tosca escrita
Recria a vida, a mente, o mundo
Sorri, lambe-lhe a ponta,grita
_ Sou eu, sou eu! Eu sou Raimundo!


24/09/2014

A questão do COMO.




Impressionante o que se lê e ouve em Congressos, Seminários, Comícios, Showmícios e vários outros eventos dessa natureza. Discurso, discurso, propostas, questionamentos, formulações, elucubrações, palavras ao vento. Belas no formato, estruturadas, com nexo, mera oratória, vazias de conteúdo. Não será a "nova era" digital a modificar as coisas. Não é a informática a varinha de condão que vai magicamente transformar o universo educacional, a educação, a escola, alunos, professores, secretários, diretores, agentes etc. O problema ainda está no COMO. É formidável ouvir políticos que propõe um maior investimento no setor educacional. É maravilhoso, até emocionante ouvir as pessoas elaborando propostas de melhorias para o setor. Mas COMO?
COMO se as pessoas não mudaram intrinsecamente? COMO se verbalizar não significa obrigatoriamente agir? A tão propalada verba do PIB para educação tem que vir de algum lugar COMO é feita essa arrecadação e quanto, efetivamente, chega ao destino? O brasileiro ouve: O Presidente, o Congresso destinaram verbas para tais e tais obras, quando ele deveria ouvir na verdade é: o povo brasileiro pagou tanto em impostos, portanto o povo brasileiro através de seus representantes (não vou entrar no mérito dessa representação) destina verbas para isso e aquilo. É fundamentalmente o COMO.
"Ah! Precisamos formar professores em tecnologia de informação para aprender a usar os instrumentos e adequá-los em suas aulas". COMO? A proposição correta seria precisamos, primeiramente, ensinar o professor a ENSINAR. O Mario Cortella diz o seguinte: não adianta você ser cozinheiro se não sabe cozinhar, porque quem sabe cozinhar o faz em fogareiro, fogão industrial em qualquer coisa e o faz BEM. Se você presenteia a quem não cozinha um fogão atômico é um presente inútil. Para ensinar alguém alguma coisa é necessário antes de tudo que essa pessoa se disponha a aprender. Se você vai ensinar um ofício a uma pessoa, essa pessoa não pode ter como única meta em sua vida ganhar dinheiro com a profissão porque ela vai fugir completamente ao ofício ensinado. É lógico. O político aqui no Brasil é carreirista, só quer saber de ser político para ganhar bem, FATO. O político brasileiro está interessado nos altos ideais políticos de "bem-estar social"? Claro que não! Está preocupado com o seu bem-estar individual. Ponto. O professor que só visa a própria sobrevivência está preocupado com os altos ideais da educação? 
Qualquer profissional bem sucedido ( não apenas financeiramente falando) vai certamente dizer que fez do seu trabalho um ato de fé, de amor. E ninguém vai entender, muitos vão até zombar, porque o homem é medido pelo que ele acumula de riquezas. Por isso o COMO não interessa, apenas o resultado. Mesmo que seja o resultado um placebo ou um paliativo ou um enjambramento. Porque assim são feitas as coisas neste País. Ninguém quer consertar o que está errado (ninguém erra). É como o médico que prescreve aspirina para a dor do câncer que o paciente sem dinheiro não pode tratar. E o COMO vira verbo pronominal e é conjugado...
Eu te como, Tu me comes, Ele me come....

24/09/2014
G

Acima com a Mediocridade



Há uma lenda sobre mulheres que viviam em bandos numa sociedade extremamente matriarcal, onde os poucos homens eram seus servos e apenas serviam para procriar. Se for fato, a sociedade patriarcal que se seguiu não modificou o paradigma, mas o gênero: mulheres servas que só servem para procriar. Na continuidade, poderia ocorrer uma síntese hegeliana em que a resultante fosse uma sociedade andrógina ou uma junção, um equilíbrio entre o matriarcalismo e o patriarcalismo, mas o que vemos ocorrer é o radicalismo. A oportunização e a legalização de grupos que exageram na sua auto-importância. De um lado os grupos homossexuais, bissexuais, transexuais, andróginos (que não são gays, mas considerados como tal) do outro, um grupo que acha mais eficaz a extinção dos anteriores e no meio desse cabo de guerra permanecem dois grupos um que se considera "normal por ser hetero" e outro que são "coisa alguma" porque não pensam a "normalidade" em sua forma tradicional e não se deixam intitular. Não há, pelo menos eu desconheço, um estudo sociológico sobre o assunto em termos de quantitativos regionais dos grupos homossexuais, bissexuais, transexuais, andróginos, dos grupos homofóbicos, dos "normais/hetero" e dos "coisa alguma".
Somos, culturalmente, um povo altamente preconceituoso ( Negamos a discriminação, a homofobia, negamos a existência dos gays, bissexuais, transsexuais, dos andróginos e dos "coisa alguma". Só existe a "normalidade". Isso afirmamos de pés juntos). 
Os grupos organizados não contemplam, nem metade da população feminina e masculina homossexual, nem metade dos grupos homofóbicos (que pleiteiam a "normalidade"), nem metade dos "normais/hetero", nem dos andróginos, nem dos "coisa alguma". E tudo isso quer dizer o que? Que é melhor manter a "normalidade" e fazer toda uma família in-feliz, do que ter e reconhecer que existe integridade também numa opção sexual, independente de religião, política, família ou qualquer outra coisa? Ou que é melhor, simplesmente, extinguir seja pelo genocídio, parricídio, fratricídio ou pelo desprezo e o repúdio, aos gays e tudo o mais em nome de uma "normalidade"? 
Não estou fazendo apologia a nada, apenas constato uma realidade infeliz e profundamente complexa porque arraigada numa cultura anacrônica.
O que é a "normalidade"? O que é ser "normal"? O que tem sido feito até agora para modificarmos esse paradigma que se estende não só na questão sexual, como também em tudo oriundo dessa cultura sectarizante? 
É a música cearense. É a ginasta paraibana. É o jeitinho carioca. É a pauliceia desvairada. É o churrasco sulista. Deveríamos ver isso como variações sobre o mesmo tema: somos um só povo, uma só Nação. Onde enterramos nossa nacionalidade? 
Estamos profundamente fragmentados. Nem mais o idioma nos alicerça, pois já não falamos a mesma língua; Ninguém se importa em falar ou escrever corretamente. Fomos corrompidos pela didática da facilitação da comunicação, por uma pedagogia que nos nega o desafio, o desconhecido, o erro, o transcendente pelo atrativo do comum, do grupal, do fácil, do normal, do medíocre. Trocamos o verbo "ser" , não pelo "ter" , mas pelo prosaico "ganhar". 
"Não preciso aprender a dirigir, só "ganhar" a carta". "Não preciso estudar, só "ganhar" as notas para passar de ano". "Não preciso trabalhar pelo país,só "ganhar" a eleição". "Não preciso aprender a tocar um instrumento, a cantar, ou ser um bom ator, só "ganhar" passe-livre na mídia". "Não me importa se o sinal está vermelho, quero é "ganhar" e "ultrapassar" o carro a minha frente".
Onde um indivíduo só "ganha", muita coisa é perdida.
Mudamos as leis, mas elas têm eficácia e eficiência para transformar a sociedade? Basta mudar o ordenamento jurídico e fica tudo maravilhoso? Foi assim com o Código de Trânsito? Foi assim com o Estatuto dos Jovens e Adolescentes? Foi assim com o Estatuto dos Idosos? Foi assim com o novo Código Civil? Foi assim com as Bolsas Assistenciais? Foi assim com o novo modelo pedagógico? Foi assim com o fator previdenciário? Com o novo Sistema de Saúde? Somos o país do cosmopolitismo sem preconceito? Do futebol, do samba e das mulheres sensuais? Então, por que a violência "normalmente" crassa?
Tem algo muito errado com esse país e não é o populacho, estejam certos. 
O errado também não está abaixo.

23/09/2014
G

GUERRA


A torre alta refletindo a luz
Iluminando aqueles corpos nus
Pálidos, frios em expiação
Corpos sem alma, uma maldição

Leve tremeluzir do pavilhão no ar
Insígnia chama tênue a se apagar
Ódio espreitando em todo o lugar
Lamento e pranto a se espalhar

Sonho e sorriso a se estilhaçar
No muro que o preconceito faz elevar
Fogo e cinza o amor enterram
Sem trégua ou absolvição 
O homem em si mesmo o bastião
Da guerra



22/09/2014

O Velho




Como nuvem tentando lambiscar a lua
Que inalcançável segue seu rumo
Vejo a mulher na janela, nua
Rogando-me um abraço, presumo


Mas, sou eu homem abandonado
Que da janela anseia a vida
Que sonha e deseja, emasculado
Como Radamés aos pés da bela Aída

Sou eu que me apego à carne
Às luzes, à platéia, ao ato
Esqueço que sou mero encarne
Do que fui, sou caricato


Prossegue a lua o seu caminho
Angustio-me à comiseração por saber
Que ela continuará, enquanto definho
Sem se importunar com o meu perecer.

19/09/2014

sábado, 26 de julho de 2014

LUMINAR


O velho abriu a porta da casa e saiu arrastando o banquinho até a calçada. Sentou-se, acomodando as costas envergadas à parede, com cuidado para não estragar a pintura nova oferecida gratuitamente pelo governo.
Eram quase seis da tarde.
Daquele ponto de observação o velho podia avistar a cruz na ponta da torre da igreja no outro bairro; o muro, a sua frente, da fábrica de tecidos agora abandonada; na esquina esquerda, a farmácia; na esquina direita, o bar da Laguna. No seu lado da calçada, ele via as casinhas iguais à dele se apinharem escoliosamente. Todas recém-pintadas, favorecidas pela Prefeitura. As cores eram horríveis iam do amarelo canário ao verde limão, do vermelho sangue ao azul celeste. As casinhas chamavam atenção pelo colorido curvo, contudo o transeunte que olhasse mais detidamente acabaria sentindo-se visualmente incomodado a ponto de não repetir a olhada. Naquela rua não passavam muitos carros e muito menos transeuntes.
A casa dele fora pintada de vermelho. O assessor do Prefeito explicara que as cores “alegres” eram parte do Projeto de Revitalização do bairro.
E é assim que eles projetam uma revitalização? Perguntou o velho a si mesmo. Não tinha mais pique para discutir bobagens. Se eles queriam revitalizar por que não sanearam? Não mudaram as lâmpadas dos postes? Os postes? Por que não asfaltaram as ruas, ao menos arrumaram o calçamento cheio de pedras soltas e buracos? Revitalizar é sinônimo de colorir aprendi mais um sofisma... Aquele assessor era só projeto... Projeto para cá e para lá... Projeto é sinônimo de Prefeitura, Governo ou Governado? Projeto, projétil, protege, projeta, governo, governado, pretérito perfeito, imperfeito...
O velho, ao pensar todas essas coisas, riu, olhando de esguelha para a rua vazia.
Sou invisível, não estou. Sou invisível. ele concluiu.  Posso fazer,  pensar e falar o que eu quiser. Ninguém me percebe. Nem os vizinhos. Se eu morrer aqui neste minuto, quanto tempo levaria para a ilação de minha morte? Talvez quando a putrefação ultrapassasse a anosmia dos vizinhos... Hoje é quinta-feira, talvez no sábado, quando passasse o caminhão de lixo.
Ele imaginou a expressão estupefata do lixeiro dando de cara com um velho morto sentado num banquinho. Gargalhou até engasgar-se.
Puxou seu saquinho de fumo de um bolso, do outro sacou a seda para fazer um palheiro. Os dedos grossos enrolaram com habilidade de longa prática o cigarro que levou a boca. Um Zippo emergiu do bolso da camisa e logo o velho pitava sem pressa, soltando a fumaça em círculos, corações e linhas irregulares. Ele gostava de desenhar e de relembrar. Perdeu-se na contemplação da parede da fábrica que praticamente tomava toda a rua.
Fora uma grande fábrica, uma fábrica boa que alimentava mais de trinta famílias. À rua deram o nome de “Pero Vaz” em homenagem ao proprietário da Fábrica de Tecidos Luminar, considerado, na época, um benemérito empresário, protetor da família, da sociedade e do bem comum. Mas, nem todo Pero Vaz bem caminha e a Luminar, por sua vez, era fábrica de tecidos, não, de velas ou lâmpadas. Nomes... Quantos nomes e apelidos esquisitos ele ouvira ao longo da vida? Gordo, para o magro. Grande, para o medíocre. Laura Pequeno, para um mulherão. Doce Vida, para um bordel. José Flores de Jesus, para o maior canalha que conhecera.
Os nomes não traduzem méritos, nem sempre o fazem.
As luzes amarelas da rua acenderam-se, mas a noite ainda não havia chegado. Um carro passou devagar pela rua. No lusco-fusco as cores das casas pareciam se mover, avançar, contorcer-se. O motorista diminuiu a velocidade e observou espantado de um lado para o outro da rua, chegou a baixar o vidro, chegou até a olhar para o velho como se não o visse, por fim acelerou ansioso por sair dali.
O velho meneou a cabeça resmungando tristemente: Rua feia, vida feia, mais um que se escapa de ti! Quem me dera fazer o mesmo!
Voltou-se para a parede da fábrica pintada de azul celeste. Alguns adolescentes haviam grafitado a parede. Alguém dissera ao velho que cada grafite naquela parede era uma assinatura, a assinatura de quem grafitou. Seria verdade? Aquilo, para ele, eram hieróglifos, se representavam nomes, sinceramente, ele não queria conhecer os signatários.
Muitas vezes os nomes traduzem a antinomia do mérito. Luminar, quem tu iluminaste foi o mesmo que te ensombreceu, foi sim!
A noite desceu. As luzes mal iluminavam a calçada. Do bar da Laguna o velho ouvia a música ruim e alta trazida pela brisa noturna. O bar despertava como faminto morcego em busca de alimento: drogas, bebida, sexo; ficaria aberto até as duas da madrugada alimentando também a farmácia que era 24 horas, a única do bairro e da Rua Pero Vaz.
O velho estreitou os olhos para ver melhor a esquina do bar. Um carro parou no cruzamento, um moço desceu, dirigindo-se ao estabelecimento, quando retornou carregava um saco cheio de alguma coisa. Cerveja? Refrigerantes? Drogas? Quem se importava? Ali, um dia, já fora um restaurante, uma pousada, uma boutique, uma loja de ferragens, um hospital de bonecas. Há tantos anos, tantos. Tudo muda com o tempo e a memória do homem que como a própria vida fica cada dia mais curta.
Ele coçou as têmporas com a mão esquerda. A mão direita segurava a ponta do palheiro apagada entre os dedos. O velho atirou os restos mortais do cigarro na coxia.
Ele fechou os olhos para rever a rua. Uma rua alegre, crianças correndo atrás das pipas, mulheres e homens de todos os tipos entrando e saindo da fábrica ao seu apitar que ecoava pelo bairro, recordando a música de Noel. A feira livre, das terças-feiras, cheia de gente, frutas, verduras, peixes, carnes, roupas. Ouviu o som do chegadinho e do algodão doce às tardes, o bulício da criançada que lhes perseguia aos risos, tilintando moedas. Tudo era a fábrica, tudo se iluminava à  sombra de Luminar, até que sobreveio a vaidade, a ganância, o demérito. Mas, quem disso se lembrava? Quem?
Pero Vaz levantou-se, pegou o banco e entrou em casa. Autocomiserando-se enxugou com as costas das mãos as suas lágrimas. Lembrou-se, então, do assessor e da revitalização.
O que passou, passou! O pretérito é, realmente, perfeito em nossas vidas!  - pensou e se perdoou.



sábado, 19 de julho de 2014

CONFORMAÇÃO




E da moléstia e da metástase,
Corroendo-lhe os sentidos moribundos,
Vem-lhe a última, a derradeira catarse,
Vê o homem, a si mesmo, em segundos.

Terrífica visão é, de tanto mal feito,
Angústia e tormento impingido às gentes.
Do egoísmo ao mórbido desrespeito,
Da mesquinhez à avareza, impenitentes.

Um pensamento lhe perpassa, de repente,
Já vem a morte ceifar o que lhe resta,
Contrito roga aos céus incontinente.

Um milagre para livrá-lo de sorte tão funesta.
Surda, a morte se avizinha mansamente,

O homem infere, arrependido chora e lhe estende a destra.


(Esta poesia foi uma das ganhadoras do 3º Prêmio Literário de Poesia do Portal Amigos do Livro 2013)